Quer dizer, o vice-presidente dos Estados Unidos aparece diante das câmeras, solta a fórmula mágica de que houve "muito progresso" nas conversas com o Irã, e o circo inteiro se mexe. Petróleo recua, ações de defesa hesitam, jornal econômico publica manchete em letra garrafal, e o leitor médio é convidado a acreditar que está testemunhando diplomacia de altíssimo nível. Olha, "progresso" é a palavra mais barata do vocabulário político justamente porque não significa absolutamente nada, e é por isso que ela é usada com tanta frequência por quem precisa parecer estar fazendo alguma coisa sem se comprometer a fazer coisa alguma.
O hábito é antigo. Toda vez que uma potência precisa justificar tropas espalhadas pelo Oriente Médio, bases militares custeadas pelo contribuinte americano e um orçamento de defesa que faria corar qualquer imperador romano, alguém sobe ao palco e anuncia que "as negociações avançam". Avançam para onde, com que prazo, sob quais termos, ninguém diz. E ninguém pergunta, porque a imprensa especializada aprendeu que repetir o comunicado oficial dá menos trabalho do que ler o que está escrito nas entrelinhas. O resultado é que a opinião pública vive num eterno limbo entre a iminência da guerra e a iminência da paz, sempre conveniente para quem precisa do orçamento aprovado na semana seguinte.
Me diz uma coisa, quem ganha com a incerteza permanente em torno do Irã? Siga o rastro do dinheiro e o quadro fica nítido. Ganha a indústria armamentista, que vende equipamento novo a cada nova "tensão regional". Ganha o complexo energético, que precifica risco geopolítico no barril e repassa ao consumidor final, do posto de gasolina em Houston ao posto Ipiranga em Belo Horizonte. Ganha o Tesouro americano, que emite dívida lastreada na premissa de que o dólar continuará sendo a moeda do petróleo, e ganha o sistema bancário internacional, que cobra spread em cada operação de hedge contratada por empresa que opera no Golfo. O cidadão comum, esse paga em inflação, em imposto e em juro alto. Sempre paga.
Há também uma dimensão que os analistas de gravata raramente tocam, porque exige algum desconforto intelectual. A política externa americana opera há décadas numa lógica em que cada presidente herda compromissos militares dos antecessores e precisa, ao mesmo tempo, simular movimento e evitar ruptura. Anunciar paz com o Irã de uma vez seria politicamente custoso, porque deslegitimaria décadas de sanções, embargos e ameaças. Anunciar guerra seria economicamente catastrófico, com o barril estourando os 150 dólares e a inflação americana, já castigada pela festa monetária pós-pandemia, batendo recordes que tirariam qualquer governo do mapa eleitoral. Resta, então, o "muito progresso", essa palavra de borracha que estica para todos os lados sem se romper.
O mais cômico, ou o mais trágico dependendo do humor do leitor, é que mercado financeiro reage a esse vocabulário como se fosse fato consumado. Algoritmos disparam compra e venda baseados em verbo no gerúndio. Gestor de fundo escreve relatório para cotista explicando que "a desescalada geopolítica favorece ativos de risco", quando o que houve foi uma entrevista de cinco minutos sem nenhum compromisso assinado. É a economia comportamental virando comédia, e o pior é que ninguém ri, porque rir exigiria reconhecer que o rei está nu há muito tempo e que ninguém quer ser o garoto da história a apontar o fato.
O que se vê é a manchete. O que não se vê é a estrutura inteira de incentivos que faz da indefinição permanente um modelo de negócio para o aparato estatal americano e seus satélites contratuais. Enquanto a palavra "progresso" continuar suficiente para mover bilhões, ninguém terá o menor interesse em definir paz de verdade, porque paz definida, contrato assinado e tropas em casa significam orçamento cortado, e orçamento cortado é a única coisa que aterroriza genuinamente quem vive da máquina. O Irã pode esperar. O contribuinte americano, e por extensão o brasileiro que importa diesel, também.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.