Quase oito mil dólares. Uma vice-presidente executiva de uma empresa que fatura quase dois bilhões por ano se desfaz de US$ 7.969 em ações e alguém registra isso num formulário da SEC como quem anota troco de padaria. O valor é tão irrisório que, sozinho, não mereceria nem nota de rodapé. Mas a economia não se lê pela manchete, se lê pela sombra, pelo que está por trás do gesto, pelo padrão que o gesto revela quando colocado ao lado de outros gestos idênticos. E o padrão aqui é inequívoco: os executivos da Pitney Bowes estão vendendo.

Deborah Pfeiffer, a tal vice-presidente executiva que comanda a divisão de Presort Services, vendeu suas ações sob o manto protetor de um plano 10b5-1, aquele instrumento jurídico que permite ao executivo programar vendas com antecedência para não ser acusado de usar informação privilegiada. Me diz uma coisa, se a diretoria de uma empresa acredita genuinamente que o preço vai subir, por que programa vendas automáticas? A resposta é tão óbvia que dá vergonha formular a pergunta. Mas Pfeiffer é o menor dos problemas. O CEO, Kurt Wolf, liquidou mais de 500 mil ações nos últimos meses, embolsando algo superior a cinco milhões de dólares. Meio milhão de ações. Do homem que supostamente está liderando a virada da companhia. Isso não é diversificação de portfólio, isso é declaração de fé invertida.

A narrativa oficial é bonita, como sempre são as narrativas oficiais. A Pitney Bowes saiu do segmento de e-commerce global, cortou dívida em US$ 114 milhões, recomprou agressivamente ações no mercado aberto e voltou a dar lucro depois de anos sangrando. O lucro líquido saltou para US$ 145 milhões em 2025, o fluxo de caixa livre bateu US$ 358 milhões, e a empresa projeta um lucro por ação ajustado de até US$ 1,60 para 2026. Tudo lindo no PowerPoint da teleconferência trimestral. Mas existe uma métrica que nenhum CFO apresenta nos slides: o comportamento de quem tem acesso às planilhas que você nunca vai ver. E o comportamento diz: saída.

Olha, existe na história corporativa americana um fenômeno tão antigo quanto as próprias bolsas de valores. Quando o capitão começa a guardar os botes salva-vidas para si, o passageiro esperto não espera pelo iceberg. A Pitney Bowes é uma empresa centenária que já foi sinônimo de correspondência corporativa nos Estados Unidos, atendia 90% da Fortune 500, era o tipo de negócio que funcionava quase no piloto automático. Mas a receita encolhe ano após ano, caiu 6,6% em 2025 e deve cair mais 4% em 2026. Reestruturar uma empresa que encolhe é como reformar uma casa que está afundando: você pode trocar o piso e pintar as paredes, mas o problema é no alicerce. A ação negocia a US$ 11, abaixo do preço-alvo médio dos analistas que, por sinal, recomendam "manter", que é o eufemismo de Wall Street para "não temos coragem de dizer 'venda'".

O detalhe que ninguém comenta é a contradição grotesca entre recomprar ações com dinheiro da empresa e vender ações pessoais ao mesmo tempo. A Pitney Bowes gastou US$ 127 milhões só no quarto trimestre de 2025 recomprando 12,6 milhões de ações em nome dos acionistas. Enquanto isso, o CEO e a vice-presidente executiva vendiam as deles. Quer dizer, o dinheiro da empresa entra pela porta da frente sustentando o preço da ação para que os executivos possam sair pela porta dos fundos a um preço decente. Se isso não é o retrato perfeito da governança corporativa moderna, com seus incentivos perversos e seus conflitos de interesse emoldurados em legalidade, eu não sei o que é. O formulário da SEC está preenchido, o plano 10b5-1 está vigente, tudo dentro da lei. A lei, aliás, quase sempre está do lado de quem a escreve.

Oito mil dólares não compram nem um carro usado em boa condição. Mas compram algo muito mais valioso: informação. Quando a vice-presidente de uma divisão que processa quinze bilhões de peças de correspondência por ano se desfaz de ações, por menor que seja o valor, e quando o CEO faz o mesmo com cinco milhões, o que está sendo comunicado não está no valor da transação, está no gesto. É a diferença entre o que se diz na tribuna e o que se faz no cartório. E no cartório, os executivos da Pitney Bowes estão assinando a saída.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.