No dia 8 de abril, Steven D. Borges, vice-presidente executivo da Jabil, desfez-se de 7 mil ações ordinárias a US$ 290 cada, embolsando US$ 2,03 milhões de uma só tacada. Não foi o único. No mesmo dia, o CEO Michael Dastoor vendeu quase US$ 2,7 milhões, o vice-presidente Rafael Renno se livrou de US$ 288 mil, e Gary Schick descartou mais US$ 290 mil. Quatro executivos do primeiro escalão, todos correndo para a mesma porta de saída, na mesma data, enquanto a ação flertava com a máxima histórica. Coincidência? Só se você acreditar em Papai Noel com diploma de MBA.
Os números da Jabil no segundo trimestre fiscal são, na superfície, espetaculares: receita de US$ 8,28 bilhões, alta de 23% sobre o ano anterior, lucro líquido de US$ 223 milhões, quase o dobro do trimestre equivalente, e uma guidance elevada para US$ 34 bilhões no ano fiscal. A ação valorizou 122% em doze meses. Analistas de bancão subiram seus price targets como quem levanta plaquinha em leilão de gado. Stifel, Argus, Bank of America, todo mundo recomendando compra. E enquanto o investidor de varejo lê esses relatórios otimistas tomando café, os executivos que conhecem os números por dentro, que sabem o que está no pipeline e o que está na maquiagem contábil, estão vendendo. Não devagarzinho. Vendendo com pressa.
Olha, existe uma velha regra nos mercados que o pessoal de compliance prefere não repetir em voz alta: insiders vendem por mil razões, mas compram por uma só. Quando um executivo compra ações da própria empresa com dinheiro do bolso, ele está apostando que aquilo vai subir. Quando vende, pode ser para comprar casa, pagar divórcio, diversificar carteira, ou simplesmente porque sabe que o pico já passou e a gravidade ainda existe. O problema não é um executivo vendendo. O problema é quatro executivos vendendo na mesma semana, perto do topo, com a narrativa de "inteligência artificial vai salvar a humanidade" sustentando o preço como um andaime sustenta uma fachada que já está rachando por dentro.
A Jabil é, no fundo, uma empresa de manufatura terceirizada. Ela monta coisas para outras empresas. Quando Wall Street cola nela o rótulo de "beneficiária da revolução da IA", o que está dizendo é que ela vai montar servidores e infraestrutura para quem de fato desenvolve inteligência artificial. É a empresa que fabrica a picareta durante a corrida do ouro. Negócio legítimo, sem dúvida. Mas o mercado está precificando a Jabil com um P/E de 40, como se ela fosse a mina de ouro, não o ferreiro. Quando a euforia com IA encontrar a realidade, e ela sempre encontra, quem comprou a US$ 290 vai descobrir que pagou preço de tecnologia de ponta por uma empresa de logística industrial sofisticada. Os executivos parecem saber disso. O varejo, não.
Me diz uma coisa: se você fosse dono de um restaurante que está batendo recorde de faturamento, com fila na porta e críticos gastronômicos elogiando, você venderia sua participação? Só se soubesse que o chef pediu demissão, o aluguel vai triplicar e a vigilância sanitária marcou visita. Ninguém vende no pico por generosidade. Vende porque enxerga algo que quem está do lado de fora ainda não viu. A grande ilusão do mercado contemporâneo é que informação é simétrica, que o investidor de varejo opera com as mesmas cartas que o C-suite. Não opera. Nunca operou. E toda vez que o mercado bate recorde com insiders na ponta vendedora, a história se repete com a pontualidade de um relógio suíço: primeiro a euforia, depois o silêncio, depois o pânico.
O que a Jabil nos ensina nesta semana não é sobre semicondutores ou inteligência artificial. É sobre a natureza humana e os incentivos que governam o mercado. Quando o dinheiro esperto sai pela porta dos fundos enquanto o dinheiro ingênuo entra pela porta da frente atraído por manchetes otimistas, não estamos diante de um mistério. Estamos diante do mais velho roteiro do capitalismo financeirizado: socialize o risco, privatize o lucro, e quando a música parar, certifique-se de estar sentado. Os executivos da Jabil já puxaram suas cadeiras.
Com informações da Investing.com. A análise e opinião são do O Algoz.