Vamos ao fato cru, sem maquiagem. Um vice-presidente executivo da Pacific Gas and Electric, aquela concessionária que coleciona processos por incêndios florestais como criança colecionava figurinha, descarregou US$ 772.766 em ações da empresa que ele mesmo ajuda a comandar. O comunicado oficial vai falar em "planejamento patrimonial", em "diversificação de portfólio", em qualquer eufemismo corporativo que sirva para encobrir o óbvio: quem está dentro vendendo papel raramente está vendendo porque acha que o papel vai subir.
Quer dizer, a PG&E é o caso paradigmático daquilo que acontece quando você junta monopólio estatal disfarçado de empresa privada com regulador capturado e político faminto por padrinho. A empresa quebrou em 2019 sob o peso de bilhões em indenizações pelos incêndios de Camp Fire e Tubbs Fire. Saiu da falência. Voltou a quebrar coisa, voltou a ser processada, voltou a aumentar tarifa para o consumidor cativo da Califórnia, que não tem para onde correr porque o Estado decidiu décadas atrás que concorrência em distribuição de energia é confusão. E agora, surpresa das surpresas, o executivo de plantão acha que é uma boa hora de transformar papel em dinheiro vivo.
Olha, siga o dinheiro. A tarifa do californiano subiu mais de cinquenta por cento nos últimos cinco anos. O governo federal liberou empréstimos garantidos para a empresa não quebrar de novo. O regulador estadual, que existe teoricamente para proteger o consumidor, aprovou aumento atrás de aumento sob o argumento de que a concessionária precisa "modernizar a rede". Modernizar com o dinheiro de quem? Do contribuinte que paga imposto, do consumidor que paga conta de luz, e do investidor de varejo que compra a ação no topo achando que está apostando numa empresa de utilidade pública sólida quando na verdade está segurando a vela enquanto o insider liquida posição.
Me diz uma coisa, se a empresa estivesse mesmo numa trajetória ascendente, com fundamentos saudáveis, balanço limpo e perspectiva de geração de caixa robusta, por que o executivo que mais conhece a casa por dentro estaria fazendo as malas do bolso dele? A resposta honesta ninguém vai dar em coletiva de imprensa. A resposta honesta é que o executivo sabe o que o pequeno acionista não sabe, e a regulação americana, com toda a sua pompa, permite que ele venda primeiro e o sujeito que comprou a ação pelo home broker descubra depois, no extrato do mês seguinte.
E aqui está a beleza perversa do arranjo. Quando uma padaria de bairro toma decisão errada, ela quebra, o dono perde tudo, e a vida segue. Quando a PG&E queima a Califórnia inteira, quem paga é o cliente cativo, o contribuinte e o investidor de boa-fé. O executivo, esse, vende ações, embolsa o cheque, e na próxima crise volta a aparecer no Congresso pedindo socorro federal com cara de vítima das circunstâncias. Não é mercado livre, não é capitalismo, não é nem socialismo declarado. É aquela coisa híbrida, asquerosa, em que o lucro é privatizado para os de dentro e o prejuízo é socializado para os de fora.
O que se vê é a manchete sobre venda de ações. O que não se vê é a tarifa que sobe amanhã, o investidor aposentado que carrega o mico no fundo de pensão, e o californiano que continua pagando para uma empresa cujos incentivos estão todos errados, do conselho até a sala de força. Essa é a economia real, não a dos manuais.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.