Um vice-presidente sênior da Adobe acaba de despejar US$ 185.914 em ações no mercado, e a notícia foi servida ao público com aquela frieza burocrática que pretende fazer passar por trivial o que, em qualquer leitura honesta, é sintoma. Executivo de altíssimo escalão, com acesso a planilhas, projeções e conversas que nenhum acionista de fora jamais verá, decide que aquele é o dia de transformar papel em dinheiro vivo. Coincidência, dirão os porta-vozes. Plano pré-programado, dirão os advogados. Rotina, dirá a imprensa especializada em reproduzir release. Olha, quando a rotina enriquece sempre o mesmo lado da mesa, ela deixou de ser rotina e virou método.
O argumento padrão é que esses programas de venda são automáticos, agendados com meses de antecedência, e portanto isentos de qualquer suspeita. Lindo no papel. Só que quem agenda também é quem decide quando agendar, e a decisão de agendar é tomada com a cabeça que conhece o balanço, o pipeline de produto, a guidance que ainda não foi divulgada e o humor da reunião de diretoria da semana passada. Quer dizer, o sujeito não precisa vender no dia em que sabe da má notícia, basta agendar a venda no dia seguinte ao dia em que soube. O verniz de legalidade cobre a substância do privilégio, e o investidor pequeno, esse que comprou ação ouvindo influencer no YouTube, fica do outro lado segurando o mico com um sorriso de quem ainda acredita em conto de fadas corporativo.
Há algo de profundamente revelador no fato de que o mercado de capitais americano, vendido ao mundo como o templo da eficiência informacional, opere na prática com duas castas claramente delimitadas. Existe a casta que vê os números antes, decide antes, vende antes; e existe a casta que lê os números depois, no jornal, traduzidos por analistas que também já venderam. A teoria do mercado eficiente, repetida em cada sala de aula de finanças, pressupõe que toda informação relevante está incorporada ao preço. Funciona maravilhosamente bem, desde que você ignore o detalhezinho de que alguns participantes incorporam a informação na conta bancária deles antes de a informação chegar ao preço.
E a Adobe, convém lembrar, não é padaria de esquina. É uma das gigantes que se beneficia diretamente da onda de inteligência artificial, da inflação de múltiplos no setor de software e da generosidade infinita do crédito barato que sustentou tech por mais de uma década. Cada vez que o banco central americano segurou juros artificialmente baixos, inflou o valor desses papéis. Cada vez que injetou liquidez para apagar incêndio que ele mesmo provocou, inflou de novo. O executivo que vende hoje está colhendo, em dinheiro real, a fruta de uma árvore que foi adubada com dinheiro fabricado do nada, na conta do contribuinte e do poupador que viu sua poupança virar pó de inflação. Siga o dinheiro até o fim e a trilha sempre desemboca no mesmo lugar: alguém imprimiu, alguém ficou rico, e alguém pagou.
O mais cômico é o tom da cobertura. Anuncia-se a venda como se fosse evento atmosférico, choveu, ventou, executivo vendeu. Nenhuma pergunta sobre o porquê, nenhuma reflexão sobre o padrão, nenhuma curiosidade jornalística sobre o que esse senhor sabe que nós não sabemos. A imprensa financeira aprendeu há muito que cutucar onça com vara curta custa anunciante, e o anunciante geralmente é a própria onça. Então o ritual segue: o insider vende, o release é reproduzido, o pequeno investidor compra na ponta contrária achando que está comprando barato porque alguém grande está vendendo, e o ciclo se fecha com a precisão de uma coreografia ensaiada por décadas.
Não se trata de demonizar a venda em si. Quem trabalha tem direito a colher o fruto. O problema é o arranjo institucional inteiro, que entrega a uns o privilégio de ver o jogo de cima e a outros a obrigação de jogar de olhos vendados, enquanto se finge que ambos estão participando do mesmo mercado. Mercado de verdade pressupõe simetria mínima de informação e ausência de privilégio legal. O que existe hoje em Wall Street é um cassino onde a casa também é jogadora, e onde a casa avisa quando vai parar de pagar. O resto é folclore para apresentação de PowerPoint em conferência de investidores.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.