Victoria's Secret entrega resultados nesta semana sob o barulho ensurdecedor de uma disputa por procurações, com o fundo BBRC, do bilionário australiano Brett Blundy, tentando emplacar uma chapa própria no conselho. A narrativa oficial é a de sempre, governança, criação de valor, alinhamento com o acionista, o vocabulário decorado que toda assembleia repete antes de votar o que já estava combinado. E enquanto os figurões medem o tamanho do bloco acionário, a empresa sangra relevância no varejo americano, com receita estagnada, margem comprimida e uma consumidora que simplesmente não está mais ali.
Olha, quando uma marca que já foi sinônimo de uma categoria inteira precisa ser salva por engenheiros financeiros de fora, o diagnóstico não está no PowerPoint do ativista. Está no produto, no posicionamento, na sucessão de decisões tomadas por executivos que confundiram coragem comercial com pedido de desculpas público. Trocaram a cliente que pagava pela cliente que tuitava, e descobriram tarde demais que tuíte não vira fatura. O ativista chega depois, com a planilha mostrando o óbvio, e cobra a entrada como se tivesse descoberto a pólvora.
Quer dizer, a guerra de procurações é o ritual moderno do capitalismo de fachada, em que dois grupos de gestores de patrimônio alheio brigam pelo direito de cobrar taxa por administrar o desastre. O acionista pulverizado, o aposentado cujo fundo de pensão detém uma fração simbólica do papel, esse não decide nada, só assina o cartão. A liturgia da democracia acionária esconde o que sempre escondeu, que o poder real está concentrado em meia dúzia de mesas, e que o resto é teatro caro com figurino de Wall Street.
Me diz uma coisa, alguém ainda lembra que esta empresa vende sutiã? Porque a discussão pública virou um cabo de guerra entre quem quer redesenhar o conselho e quem quer manter o conselho que redesenhou a marca até descaracterizá-la. Ninguém pergunta por que a loja esvaziou, por que a concorrência das marcas digitais comeu o almoço, por que a base fiel foi tratada como problema a ser reeducado em vez de cliente a ser servida. O mercado já respondeu, com o pé, indo embora. O resto é barulho de plenário.
Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. O ativista ganha se subir o preço da ação no curto prazo, vende, agradece e some. O conselho atual ganha bônus enquanto segurar a cadeira. Os fundos passivos votam conforme a cartilha de governança da ISS, que é uma empresa privada decidindo o futuro de centenas de companhias listadas com base em critérios que ninguém elegeu. O consumidor, esse personagem esquecido, paga a conta quando o produto piora, a loja fecha e a cidade perde mais um ponto de varejo físico. Mas consumidor não vota em assembleia, então segue invisível.
O resultado desta semana vai mostrar números, e os números vão ser girados pelos dois lados como prova de tese. Subiu, é mérito da gestão atual. Caiu, é razão para a troca. Ninguém vai dizer a verdade simples, que reconstruir uma marca de consumo exige tempo, foco e respeito pela cliente, três coisas que o calendário trimestral e o ativismo de fundo abreviam sistematicamente. Empresa que vira campo de batalha de procuração raramente sai mais forte. Sai mais magra, mais endividada e com um novo organograma para impressionar a próxima rodada.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.