A cena é sempre a mesma e nunca cansa de se repetir. Uma biotech de porte médio, sem receita relevante, sem produto aprovado, sem nada além de moléculas em ensaio clínico, vira queridinha de Wall Street porque tropeçou num filão chamado obesidade. A Viking Therapeutics divulga balanço esta semana e o consenso é de prejuízo de oitenta e tantos centavos por ação, com receita praticamente zero. Em qualquer indústria normal isso seria atestado de óbito. Aqui é trampolim para valuation de bilhões. Por quê? Porque o mercado não está comprando lucro, está comprando expectativa. E expectativa, quando alimentada por dinheiro barato, vira a coisa mais cara do mundo.
O VK2735, o tal medicamento que justifica toda a euforia, é mais um GLP-1 numa fila que já tem Ozempic, Wegovy, Mounjaro e meia dúzia de imitações chinesas batendo na porta. A diferença, dizem os analistas de plantão, é que o da Viking pode ser melhor. Pode. Talvez. Quem sabe. Os ensaios de fase três estão andando, os resultados preliminares animaram, e isso bastou para a ação subir como foguete em 2024 antes de cair pela metade em 2025. Volatilidade não é bug, é feature. É assim que se transfere riqueza do investidor de varejo para o fundo que entrou na rodada anterior.
Olha, me diz uma coisa. Por que uma sociedade inteira decidiu, simultaneamente, que o problema dela é comer demais, e que a solução é uma injeção semanal pelo resto da vida? A pergunta não é médica, é civilizacional. Países inteiros que aprenderam a cozinhar há três mil anos terceirizaram o apetite para a indústria farmacêutica em três décadas. E quem paga essa conta? No mundo desenvolvido, paga o contribuinte via Medicare, NHS, sistemas públicos de saúde que agora discutem cobrir GLP-1 como se fosse vacina. Siga o dinheiro e você encontra o de sempre, o cidadão financiando o lucro do laboratório através de um intermediário burocrático que cobra pedágio no caminho.
O que se vê é a manchete sobre a revolução do emagrecimento, o gráfico subindo, o CEO sorrindo na CNBC. O que não se vê é a bolha de capital construída em cima de moléculas que ainda nem foram aprovadas, é a fila de pequenos investidores que vão comprar no topo achando que perderam a primeira onda, é o desvio brutal de pesquisa farmacêutica para o nicho mais lucrativo em detrimento de doenças negligenciadas que não têm marketing. Quando o crédito está farto e os juros estão na lua, todo capital corre para a promessa mais brilhante. Quando a maré baixa, descobre-se quem estava nadando pelado.
Há ainda o aspecto regulatório, que ninguém comenta em voz alta. A FDA aprovou os primeiros GLP-1 com bula limitada, e em poucos anos a indicação se expandiu, se expandiu e se expandiu até chegar a praticamente qualquer pessoa com IMC acima de vinte e sete. Isso é captura clássica, e funciona dos dois lados. A indústria precisa do mercado massivo para justificar o preço, o regulador precisa parecer responsivo, e o cidadão recebe a fatura embrulhada em papel de presente chamado saúde pública. A Viking quer entrar nessa festa porque é onde o champanhe está sendo servido.
O resultado desta semana vai ser o de sempre. Prejuízo confirmado, caixa queimando, ação balançando vinte por cento em qualquer direção dependendo de uma vírgula no comunicado sobre o ensaio clínico. Os fundos de hedge já posicionados vão lucrar nos dois lados da gangorra. O analista do banco vai sair com nova projeção. E o pequeno investidor, esse vai aprender de novo, pela milésima vez, que apostar em promessa farmacológica financiada por dinheiro impresso é o jogo mais antigo do cassino moderno. A casa sempre ganha, e nesta mesa a casa tem três letras, FED, e um sotaque que não muda há cem anos.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.