Vini Jr no Real Madrid, Raphinha no Barcelona, e uma planilha de valores de mercado que somada chega a 900 milhões de euros, ou algo próximo de cinco bilhões de reais ao câmbio que ninguém quer olhar com calma. É a Seleção mais cara da história, e talvez seja também a mais distante. Nenhum desses craques joga no Brasil. Quase nenhum desses contratos é negociado em real. E quase nenhum centavo do lucro gerado por essas pernas brasileiras volta para o país que pariu, alimentou e formou o talento bruto que hoje rende dividendos em catalão, castelhano, inglês e árabe.
O brasileiro médio vai ligar a televisão em junho, abrir uma cerveja que custa três vezes o que custava há cinco anos, e torcer com fervor genuíno por uma camisa amarela cujos donos verdadeiros estão sentados em conselhos administrativos do outro lado do Atlântico. É o sonho terceirizado. É a saudade convertida em produto de exportação. Quer dizer, o Brasil deixou de ser país de futebol no dia em que virou país de revelar futebol, e a diferença entre uma coisa e outra cabe inteira nessa lista de 900 milhões.
Olha, ninguém precisa fingir que isso é acidente do mercado. O que sangra esse jogador para fora é uma combinação cuidadosa de carga tributária esmagadora sobre clubes nacionais, insegurança jurídica crônica, juros que estrangulam qualquer investimento de longo prazo em base, e um campeonato local cujo modelo de gestão pertence a outro século. Não é o Real Madrid que rouba o Vini, é o Brasil que o empurra para fora. Quando um país transforma sua atividade econômica mais idolatrada num inferno regulatório, não reclame depois que os ativos migraram. Os ativos sempre migram. É só o capital obedecendo a gravidade que o próprio governo criou.
Me diz uma coisa, alguém ainda lembra do tempo em que Romário, Bebeto, Zico e Sócrates jogavam por aqui parte considerável da carreira? Aquilo não era romantismo, era economia funcional. Havia escala, havia público pagante, havia retorno suficiente para segurar o craque ao menos até a fase adulta. Hoje, garoto de quinze anos já tem empresário europeu na porta de casa, porque qualquer pessoa minimamente racional entende que deixar o talento amadurecer no Brasil significa vê-lo ser triturado por imposto, juros, calendário insano e dirigente improvisado. Saiu cedo? Saiu porque o mercado interno foi destruído por décadas de intervenção, paternalismo de federação e captura política do esporte.
E ainda há quem celebre a tal Seleção bilionária como prova de pujança nacional. Não é. É a prova exata do contrário. Pujança seria ter dez clubes brasileiros entre os cinquenta mais valiosos do mundo. Pujança seria reter pelo menos metade desse talento até os trinta. Pujança seria o craque brasileiro pagar imposto no Brasil sobre rendimento gerado no Brasil. O que temos é uma plantação de talento operada em regime quase colonial, em que o solo é fértil, a mão de obra é local, mas o lucro, o capital e a marca pertencem ao comprador estrangeiro. Chama isso do que quiser, menos de vitória econômica.
No fim, a Copa vai passar, alguém vai chorar, alguém vai gritar, e o brasileiro vai voltar para uma realidade onde o salário mínimo não compra a chuteira do ídolo, onde o time do coração é gerido por amador, e onde a melhor exportação nacional continua sendo gente. Enquanto o Estado tratar o sucesso como suspeito e o trabalho produtivo como vaca leiteira, vamos seguir aplaudindo, em rede nacional, o êxito alheio com sotaque brasileiro. A bola é nossa. O lucro, nunca foi.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.