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Ontem à noite, com 97% das urnas apuradas, Peter Magyar e seu partido Tisza destruíram 16 anos de domínio de Viktor Orbán com uma margem que ninguém esperava: 53,6% contra 37,8%, supermaioria de dois terços no parlamento, poder para reescrever a Constituição. Comparecimento recorde pós-comunismo, 77% dos eleitores às urnas. Em qualquer democracia funcional, isso seria notícia por si só. Mas a consultoria britânica Capital Economics achou necessário empacotar a análise com um laço: ótimo para a economia, porque agora a Hungria vai liberar os fundos da União Europeia. Parou por aí. Não perguntou de onde vêm esses fundos. Não perguntou por que estavam bloqueados. Não perguntou o que exigem em troca. Só viu os 18 bilhões e chamou de oportunidade.

Os 18 bilhões de euros em questão são fundos de coesão e recuperação congelados pela Comissão Europeia desde que Bruxelas concluiu que Orbán não cumpriu as exigências institucionais, independência do Judiciário, combate à corrupção, liberdade de imprensa. Isso é legítimo como razão para bloquear. O que não é legítimo é chamar o desbloqueio desse dinheiro de vitória do mercado livre. Esse dinheiro não é capital privado atraído pela qualidade do ambiente de negócios húngaro. É redistribuição fiscal: arrecadado compulsoriamente dos contribuintes do Norte Europeu, gerenciado por burocratas em Bruxelas, liberado condicionalmente a reformas que Bruxelas aprova, e repassado a projetos que governos escolhem. A diferença entre isso e um plano quinquenal soviético é apenas de escala e vocabulário.

Orbán não foi libertário em nenhum momento da sua carreira. Construiu um Estado clientelista sofisticado, concentrou mídia, capturou tribunais, distribuiu contratos públicos para aliados com uma eficiência que faria corar qualquer petista brasileiro. Sua resistência a Bruxelas tinha mais de birra pessoal e interesse eleitoral doméstico do que de princípio filosófico. O problema do seu governo não era excesso de mercado, era excesso de poder concentrado em pouquíssimas mãos. Para isso não existe solução liberal, existe só alternância de elites, e é exatamente isso que aconteceu ontem. Magyar venceu prometendo combater a corrupção e restaurar as instituições porque era o que Bruxelas exigia para liberar os 18 bilhões. Siga o dinheiro e você entende a eleição inteira sem precisar de análise ideológica.

O que Magyar vai fazer com esse dinheiro, quando vier, é a pergunta que a Capital Economics não fez. O déficit fiscal húngaro está projetado em 5,2% do PIB para 2026, pior do que os 4,6% de 2025. A dívida pública caminha para 74,5% do PIB. A economia cresceu 0,3% em 2025. Um governo que chega ao poder com supermaioria parlamentar, déficit crescente e 18 bilhões de euros de fundos externos para distribuir tem dois caminhos óbvios: usar o dinheiro para reformas estruturais que reduzam o papel do Estado, ou usá-lo para expandir gastos, comprar bases eleitorais e consolidar poder. A história de todos os governos que chegaram ao poder prometendo combater a corrupção do predecessor diz que o segundo caminho é muito mais provável. A questão não é se Magyar é honesto ou corrupto, é que os incentivos estruturais apontam para o crescimento do Estado, não para a sua redução.

Há um detalhe que revela mais sobre como o mundo pensa economia do que qualquer análise: a palavra "pró-mercado" foi aplicada a um governo que precisa de 18 bilhões de euros de subsídio externo para estabilizar a economia. Quando "pró-mercado" passou a significar "alinhado com as exigências do maior bloco regulatório do planeta, que proíbe ajuda estatal em alguns setores enquanto pratica ajuda estatal em outros, impõe regulação ambiental que encarece a produção industrial e usa o orçamento coletivo para redistribuir renda entre países membros", perdeu o significado. Não é pró-mercado. É pró-Bruxelas. A diferença importa.

A Hungria trocou um homem que concentrava o poder em nome da nação húngara por um projeto político que promete distribuir esse poder em nome da conformidade europeia. Pode ser uma troca legítima em termos democráticos. Pode até ser uma troca necessária dado o nível de corrupção do regime anterior. Mas celebrar isso como vitória do livre mercado é confundir o mapa com o território, o vocabulário com a realidade. Enquanto o déficit cresce, a dívida sobe e o Estado continua como árbitro central da economia, a única coisa que mudou foi o endereço dos escritórios de onde vêm as ordens.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.