Sexta-feira, 4,8 trilhões de dólares. A Alphabet bate na porta do trono que hoje pertence à Nvidia e à Apple, e o gatilho dessa escalada não foi um produto novo de prateleira, foi a corrida da inteligência artificial que transformou três ou quatro empresas americanas em algo que se parece menos com companhias privadas e mais com infraestrutura estratégica de um império. Quem olha o número e aplaude está vendo metade do filme. A outra metade, a que importa, está nos contratos federais, nas isenções de pesquisa, nos cabos submarinos subsidiados, nos data centers que recebem energia a preço político e nas regulações de privacidade que, vejam só, atingem em cheio o concorrente pequeno e mal arranham o gigante. Sempre foi assim. Sempre será.
Olha, o capitalismo de verdade, aquele que premia quem entrega valor para o consumidor, não produz seis empresas concentrando dois dígitos do PIB de uma nação inteira. Isso é outra coisa. Isso é o velho arranjo entre balcão e palácio vestido de hoodie e tênis branco. A Alphabet enfrenta processos antitruste em três continentes ao mesmo tempo em que recebe contratos de nuvem do Pentágono, parcerias com agências de inteligência e cadeiras cativas em comitês de governança de IA que vão escrever, surpresa, exatamente as regras que ela já cumpre e o concorrente nascente não consegue cumprir. A regulação que parece morder, na prática, cerca o quintal e tranca o portão por dentro.
Quer dizer, o sujeito comum lê a manchete e pensa que aquilo é mérito puro de engenharia. E há mérito, sim, ninguém constrói um buscador, um sistema operacional móvel e um modelo de linguagem competitivo por acaso. Mas o salto de meritocracia para semideus depende de uma variável que o jornalismo econômico brasileiro insiste em esconder embaixo do tapete: a expansão monetária americana dos últimos quinze anos jogou trilhões de dólares baratos atrás de qualquer ativo que prometesse crescimento futuro, e os fundos passivos despejaram esse oceano de liquidez justamente nas mesmas seis ou sete ações. A bolha não está nos preços, está na forma como o dinheiro foi fabricado. Quando a impressora gira, quem tem acesso primeiro ao crédito vira gigante. Quem tem acesso por último paga a conta no supermercado.
Me diz uma coisa, por que ninguém pergunta o que acontece com o capital humano e financeiro que poderia ter ido para mil empresas médias inovadoras, espalhadas por mil cidades, e foi sugado para meia dúzia de campus na Califórnia? A resposta incomoda porque expõe a falácia do progresso técnico como se ele caísse do céu. Não cai. Ele é canalizado. E o canal foi cavado por décadas de política monetária frouxa, regulação seletiva, lobby cirúrgico e uma simbiose quase explícita entre vale do silício e Washington que nenhum governo, democrata ou republicano, teve coragem de quebrar de verdade. Processam para inglês ver, multam para depois devolver em contrato, ameaçam para depois nomear executivo da casa para cargo regulador.
E o Brasil, no meio disso, faz o quê? Discute taxação de big tech como se fosse projeto de soberania, quando na prática é apenas a tentativa do nosso próprio Leviatã de morder um pedaço da carcaça antes que ela passe. Não há projeto nacional de tecnologia, não há ambiente para que uma empresa brasileira de IA nasça e cresça sem afogar em CARF, em Receita, em Anatel, em LGPD interpretada por burocrata que nunca compilou uma linha de código. O resultado é previsível. Continuaremos consumidores, continuaremos plataforma de extração de dados, continuaremos torcendo para que o gigante americano seja menos hostil que o gigante chinês. Soberania virou escolha de senhor.
O que se vê é o trilhão. O que não se vê é a economia paralela que não nasceu, o concorrente que foi sufocado no berço pela regulação cara demais, o engenheiro brilhante que virou funcionário em vez de fundador, o capital que foi para o índice em vez de ir para a oficina do bairro. O número de 4,8 trilhões não é um troféu do livre mercado. É um atestado médico do paciente. E o paciente, senhoras e senhores, está sendo medicado pelo mesmo sujeito que vendeu a doença.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.