A VivoPower acaba de abrir a caça por inquilinos para seu data center na Noruega, e a notícia, que chega travestida de trivialidade corporativa nas páginas de negócios, diz mais sobre como o mundo realmente funciona do que mil páginas de plano diretor de transição energética. Não houve comitê interministerial. Não houve consulta pública. Não houve "marco regulatório da IA soberana". Houve gente com capital próprio olhando para um mapa, enxergando que a Noruega tem hidrelétrica sobrando, temperatura média que refrigera servidor sem ar-condicionado e estabilidade política que não muda de regime a cada eleição, e decidindo plantar o galpão lá. O preço da energia sussurrou, e o capital ouviu.
Olha, isso é exatamente o que aquele velho papo sobre conhecimento disperso sempre quis dizer. Nenhum ministro do planejamento, por mais diplomas que tenha, saberia que o fiorde tal, com o excedente hidrelétrico tal, com o cabo submarino tal ligando ao norte da Europa, é o lugar ótimo para hospedar a próxima onda de treinamento de modelos de linguagem. O sistema de preços sabe. E sabe porque milhões de informações, vindas de milhões de cabeças, foram comprimidas naquele número chamado kWh. Quando o burocrata brasileiro decide, por decreto, que o data center "estratégico" vai ficar em Pernambuco porque rende voto, ele está chutando. Quando a VivoPower decide Noruega, ela está calculando.
E aqui entra a parte que ninguém vê, que é sempre a parte mais cara. Enquanto a Noruega atrai bilhões em capital de infraestrutura digital oferecendo energia limpa, barata e sem drama regulatório, o Brasil oferece o pacote inverso: tarifa industrial entre as mais caras do mundo ocidental, ICMS empilhado em cascata, Aneel reescrevendo regras no meio do jogo, e o charme adicional de um sistema elétrico que depende do São Pedro mandar chuva no Sudeste. O capital que vai para Stavanger é capital que não vem para Fortaleza. Os empregos que se criam lá são empregos que não se criam aqui. A arrecadação futura de ISS sobre serviços digitais vai para o tesouro norueguês, não para o caixa único municipal. Tudo isso é invisível no telejornal, mas é real na balança de pagamentos daqui a dez anos.
Quer dizer, siga o dinheiro. A VivoPower é empresa listada, precisa dar retorno a acionista, não a eleitor. Então procura o lugar onde o megawatt é mais barato, a licença sai mais rápido, o risco de expropriação é menor e o judiciário não inventa tese nova a cada troca de ministro. A Noruega oferece isso porque é um país pequeno que entendeu, há décadas, que confiabilidade institucional é ativo econômico. Já desenvolveu sua riqueza sem precisar imprimir moeda, sem precisar "estimular demanda agregada" e sem precisar de BNDES escolhendo vencedor. Só cuidou de não estragar o que a geografia e a prudência já tinham dado.
E tem o detalhe filosófico que passa despercebido. Data center é, no fundo, o novo chão de fábrica da civilização. Quem hospeda os servidores hospeda o cérebro econômico do século. Os países que entenderam isso estão competindo por capital oferecendo o que sempre funcionou: baixa tributação, energia estável, regra clara, contrato respeitado. Os países que não entenderam estão organizando seminário sobre "soberania digital" enquanto exportam engenheiro para Oslo. A realidade, teimosa como sempre, não pede licença para acontecer do lado de lá da fronteira.
Me diz uma coisa, quantos "planos nacionais de inteligência artificial" foram anunciados nos últimos cinco anos no Brasil, com pompa, com slide colorido, com secretaria nova criada para "coordenar o ecossistema"? E quantos data centers de escala mundial esses planos produziram? Pois é. Enquanto isso, uma empresa que a maioria nunca ouviu falar abre um galpão num fiorde, e o mercado global de computação acaba de ganhar mais um nó. Sem ministério. Sem edital. Sem comitê. Só capital, preço e coragem. É assim que a riqueza nasce, e é exatamente por isso que ela quase nunca nasce onde o Estado promete que vai nascer.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.