A Vodafone reportou crescimento orgânico de receita acima do que os analistas esperavam, e o motivo é constrangedoramente simples para quem passou as últimas duas décadas vendendo a tese contrária. A empresa decidiu parar de fingir que era um conglomerado pan-europeu invencível e voltou a se comportar como uma operadora de telecomunicações com mercados-âncora na Alemanha e no Reino Unido. Vendeu Itália, vendeu Espanha, fundiu operações na Inglaterra, e o resultado apareceu na linha de cima do balanço. Quem diria, não é mesmo, que prestar atenção em poucas coisas funciona melhor do que prestar atenção ruim em muitas.
O ponto interessante aqui não é o resultado trimestral, que é um detalhe contábil. O interessante é o que esse resultado denuncia sobre a década anterior. A Vodafone, como tantas outras campeãs nacionais europeias dos anos 2000 e 2010, foi inflada por um caldo cultural muito específico, aquela ideia de que escala geográfica era sinônimo de competitividade, que estar em vinte e tantos mercados era prova de robustez, que governos e bancos centrais empurrariam crédito barato indefinidamente para sustentar conglomerados grandes demais para falhar. Era a era em que o custo do capital fora artificialmente esmagado, e qualquer aquisição parecia fazer sentido porque o dinheiro literalmente não custava nada.
Quando o vento monetário virou, quando a impressora foi obrigada a desacelerar e os juros voltaram a parecer juros, essas empresas ficaram nuas. Aquilo que parecia diversificação revelou-se dispersão. Aquilo que parecia sinergia revelou-se subsídio cruzado entre uma operação ruim e outra menos ruim. A retirada da Itália por nove bilhões, a venda da Espanha por cinco bilhões, a fusão com a Three no Reino Unido, tudo isso é a confissão silenciosa de que a estratégia anterior nunca foi estratégia, foi inércia bem vestida com slide de PowerPoint.
Vale prestar atenção em quem ganhou e quem perdeu nessa história longa. Os acionistas que entraram em 2000, no auge da bolha das telecomunicações, perderam fortunas reais ajustadas pela inflação. Os executivos que pilotaram a expansão saíram com pacotes generosos. Os reguladores europeus, que adoram um conglomerado grande porque é mais fácil ligar para um CEO do que para vinte, aplaudiram durante anos. E o consumidor europeu pagou tarifas mais caras do que pagaria num mercado verdadeiramente competitivo, fragmentado, com pequenas operadoras brigando por cada cliente. O cartel travestido de campeão nacional sempre cobra esse pedágio invisível.
Há uma lição mais ampla soterrada nesse press release de Bloomberg, e ela tem pouco a ver com telefonia. Empresas que sobrevivem às correções de ciclo são aquelas que aprendem, mesmo que tarde, que riqueza se cria fazendo bem algumas coisas, não fazendo razoavelmente muitas. Estados deveriam aprender a mesma lição, mas raramente aprendem porque não enfrentam falência. A Vodafone foi forçada pelo mercado a admitir o erro e corrigir o rumo. O Tesouro alemão, o Tesouro britânico, todos os tesouros do mundo continuam empilhando funções, programas e secretarias sem nenhum mecanismo equivalente que os obrigue a soltar o que não funciona. A diferença entre uma empresa em apuros e um governo em apuros é que a empresa eventualmente decide vender a Itália. O governo decide criar uma nova secretaria para a Itália.
O número trimestral, no fim das contas, é menos interessante do que a parábola embutida nele. Foco é uma virtude que custa caro de adquirir quando o crédito é farto e parece gratuito quando o crédito seca. Toda vez que alguém celebrar a próxima grande fusão transformacional anunciada em coquetel, lembre-se da Vodafone gastando os anos vinte e a primeira metade dos anos trinta deste século desmontando a Vodafone dos anos dois mil. Imperialismo corporativo, assim como o outro, sempre termina com retirada envergonhada e contabilidade dolorosa.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.