O vice-presidente e conselheiro geral da Arteris vendeu 450.285 dólares em ações da companhia, segundo registro divulgado pela Investing.com. Não é crime, não é escândalo jurídico, não é manchete de polícia. É apenas um executivo de altíssimo escalão de uma das maiores concessionárias de rodovias do país transformando papel em dinheiro vivo num momento em que, convenhamos, o cidadão que pega a Régis Bittencourt ou a Fernão Dias sente o bolso queimar a cada cabine. A pergunta que ninguém na imprensa econômica faz é a única que importa, de onde vem o lucro que valoriza essas ações a ponto de uma fatia parcial render quase dois milhões e meio de reais para um único homem.

Vem do pedágio, e o pedágio vem do contrato, e o contrato vem do governo. Esse é o pequeno detalhe que separa um empreendedor de verdade, daqueles que arriscam capital próprio num mercado competitivo, de um concessionário que opera num regime de monopólio geográfico garantido por canetada. A Arteris não disputa cliente com ninguém, o motorista que precisa atravessar São Paulo rumo ao Sul não tem rota alternativa, não tem aplicativo para comparar preço, não tem concorrente oferecendo desconto. Tem cabine, tarifa reajustada por fórmula contratual e a benevolência regulatória da ANTT, que historicamente trata concessionária como sócia e usuário como gado.

Olha, isso aqui não é capitalismo. Capitalismo é padaria competindo com padaria, é montadora brigando por consumidor, é risco real de quebrar quando você entrega produto ruim. O que existe na concessão de rodovia brasileira é outra coisa, é um arranjo onde o governo cria um monopólio artificial, entrega para um operador privado, garante o fluxo de receita via contrato blindado, sociabiliza qualquer prejuízo via reequilíbrio econômico-financeiro, e privatiza o lucro via dividendo e valorização de ação. Quando o executivo embolsa meio milhão de dólares vendendo papel, ele não está colhendo o fruto de inovação ou eficiência, está colhendo o fruto de um contrato que o brasileiro comum nunca leu e nunca poderia negociar.

O que se vê é a manchete asséptica da Investing, executivo vende ações, fim. O que não se vê é a fila de caminhoneiro reclamando de pedágio que ano após ano consome margem inteira de frete, é o turista que desiste de viajar de carro porque a soma das cabines virou inviável, é o pequeno empresário do interior que repassa o custo do transporte no preço final do produto e perde competitividade. Cada dólar daquela venda foi extraído gota a gota, real a real, de pneus rodando em asfalto que o motorista já pagou três vezes, uma no imposto, outra na CIDE do combustível, e a terceira na cabine. A riqueza não foi criada, foi transferida, e essa distinção é o resumo de tudo.

Quer dizer, o sujeito que controla o contorno, controla a economia regional inteira. Vale para rodovia, vale para porto, vale para distribuição de energia, vale para água e esgoto. Toda vez que o Estado entrega um pedaço de infraestrutura essencial sob regime de monopólio com tarifa reajustada por planilha, ele está fabricando milionário sem mercado e cobrando a conta de quem não tem para onde fugir. E aí o governo de plantão, seja qual for a sigla, posa de defensor do povo enquanto assina o aditivo contratual que garante o próximo dividendo. É um arranjo elegante, silencioso, e devastador, porque opera longe dos holofotes, sem cassinos, sem maletas, sem CPI, só com cartório, contrato e cabine.

E o motorista, esse, continua acelerando rumo ao próximo posto de gasolina, sem perceber que financia, todo final de semana, a próxima venda de ações de algum executivo que ele nunca vai conhecer, em alguma reunião de conselho que ele nunca vai presenciar, sobre uma estrada que ele já pagou várias vezes, mas continua, eternamente, alugando.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.