Dois mil seiscentos e trinta e seis dólares. É esse o valor da venda de ações que mereceu nota em portal de informação financeira sobre um vice-presidente sênior da Universal Electronics. Para colocar em perspectiva, isso é menos do que custa um iPhone topo de linha em Miami, menos do que um executivo desse calibre gasta em jantar com cliente, menos do que a gorjeta anual do motorista dele. E mesmo assim, a engrenagem de produção de ruído chamada imprensa de mercado embalou a coisa, colocou laço e entregou ao leitor como se fosse informação acionável.
Olha, o ponto aqui não é o executivo, que deve ter vendido um lote residual por motivo trivial qualquer, imposto, rebalanceamento, presente de aniversário da neta, vai saber. O ponto é o sintoma. Quando o noticiário econômico precisa raspar o tacho a esse nível, está dizendo que a função real dele não é informar, é preencher espaço entre os anúncios. É manter o leitor preso à tela acreditando que algo, qualquer coisa, está acontecendo o tempo todo, porque mercado parado não vende clique e clique parado não vende publicidade programática.
Há um problema mais fundo nesse tipo de cobertura. Ela cria no investidor de varejo a ilusão de que existe uma camada secreta de informação privilegiada que, se ele acompanhar com atenção monástica, vai deixá-lo à frente da multidão. É a velha promessa do cassino disfarçada de jornalismo. O sujeito passa a tarde lendo que fulano vendeu dois mil dólares, beltrano comprou cinco mil, e termina o dia com a sensação narcótica de estar bem informado, quando o que ele tem na cabeça é poeira estatística sem nenhum poder preditivo.
Quer dizer, todo mundo que já leu três páginas sobre como mercados funcionam sabe que vendas de insiders só carregam algum sinal quando são volumosas, concentradas no tempo e feitas por gente com acesso a informação operacional sensível. Dois mil e seiscentos dólares não é sinal, é fricção. É o tipo de movimentação que existe aos milhares por dia em qualquer empresa listada e que só vira notícia porque a Securities and Exchange Commission obriga a divulgação e algum robô do outro lado capturou o registro e cuspiu no feed.
O fenômeno tem causa econômica clara, e ela é a mesma há décadas. A oferta de jornalismo financeiro multiplicou por mil, a quantidade de fatos econômicos relevantes por dia continua sendo a mesma de sempre, talvez umas dez ou doze coisas que de fato mexem o ponteiro. A diferença entre os dois números é preenchida com isto, com formulário regulatório virando manchete, com tweet de influenciador virando análise, com qualquer respiração de executivo virando movimento de mercado. É inflação, e como toda inflação, corrói o valor da unidade. Quanto mais notícia, menos cada notícia significa.
O leitor sério faz o oposto do que o algoritmo quer. Ignora o ruído, lê balanço, lê relatório anual, conversa com gente que entende do setor e dorme tranquilo enquanto o vizinho perde a noite tentando decifrar o significado cósmico de uma venda de dois mil dólares. Informação demais sem hierarquia é a forma mais sofisticada de desinformação que o capitalismo financeiro já produziu, e o curioso é que ela é vendida embrulhada em transparência regulatória, como se quantidade de papel timbrado equivalesse a qualidade de entendimento.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.