Um vice-presidente sênior e diretor financeiro da Snap-on vendeu pouco mais de quinhentos mil dólares em ações da companhia que ele mesmo audita, assina e apresenta ao mercado. Repita a frase devagar, porque ela carrega mais informação do que cinquenta relatórios de analista de banco. O homem que conhece cada vírgula do balanço, cada provisão, cada conversa silenciosa entre o conselho e a auditoria, decidiu transformar parte do papel em dinheiro vivo. Pode ser planejamento tributário, pode ser divórcio, pode ser piscina nova. Também pode ser que ele esteja vendo algo que o resto do rebanho ainda não viu.

Existe uma diferença abissal entre o conhecimento disperso que circula nos pregões e o conhecimento concentrado que mora na cadeira do CFO. O mercado opera com milhões de pedaços de informação espalhados por gente que palpita sobre o que acha que vai acontecer. O diretor financeiro opera com a coisa em si. Quando esses dois mundos divergem, e o homem de dentro começa a se desfazer do papel enquanto o homem de fora ainda compra, há um desencontro de saberes que costuma terminar mal para quem chegou por último à festa.

Não é coincidência que a regulação americana obrigue executivos a declararem essas operações. A obrigação existe justamente porque o legislador, num raro momento de lucidez, reconheceu que a assimetria de informação entre o insider e o investidor de varejo é grande demais para ser ignorada. O sujeito que aparece na televisão dizendo que a companhia está num momento espetacular e na semana seguinte despeja meio milhão em ações está, no mínimo, contando duas histórias. Uma para o microfone, outra para a corretora.

Há aqui uma lição que vale para muito além da Snap-on. Toda vez que alguém com acesso privilegiado a uma informação age contra o discurso oficial daquela mesma instituição, preste atenção. Vale para empresa de capital aberto, vale para banco central que diz que a inflação é transitória enquanto compra ouro, vale para ministro que jura austeridade e aprova o terceiro suplementar do trimestre. Palavras são baratas, executivos sabem disso melhor do que ninguém. O que custa caro é a ação, e a ação revela o que a entrevista esconde.

O investidor comum brasileiro, acostumado a ouvir que precisa confiar nos fundamentos, nos analistas, nas casas de research que vivem do giro das corretoras, deveria desenvolver o hábito quase devocional de acompanhar o que os insiders fazem com o próprio dinheiro. Não o que dizem em conference call, não o que escrevem em carta aos acionistas, mas o que fazem quando ninguém está prestando atenção. Esse é o sinal verdadeiro, e ele costuma chegar antes da manchete.

Meio milhão de dólares não derruba a Snap-on, evidentemente, e a venda pode ser absolutamente inocente. Mas o princípio permanece, e ele é mais antigo do que qualquer bolsa de valores. Quem está na cozinha sabe quando a comida queimou bem antes do garçom levar o prato à mesa. Cabe ao cliente decidir se vai comer assim mesmo, confiando no sorriso do maître, ou se vai dar uma olhada por cima do balcão antes de pagar a conta.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.