A notícia chega embrulhada no papel de presente de sempre. A WAG Payment Solutions, empresa de meios de pagamento, anunciou que revisou para cima suas projeções de EBITDA para 2026, e a imprensa especializada correu para reproduzir o comunicado com aquela reverência que só reservam para promessas corporativas e discursos de banco central. Ninguém pergunta o óbvio: se a empresa sabia que ia performar melhor, por que o guidance anterior estava tão conservador? E se não sabia, com base em que agora sabe? Guidance virou instrumento de gestão de expectativa de acionista, não previsão honesta de resultado.
O setor de pagamentos digitais, no Brasil e no mundo, foi inflado por uma década de juros artificialmente baixos, dinheiro barato jorrando de fundos que precisavam colocar capital em qualquer coisa que parecesse tecnologia. Toda vez que o Banco Central de qualquer país aperta o botão da impressora, alguém em algum lugar monta uma fintech, promete disruptar o sistema financeiro e recebe avaliação de bilhões antes de dar lucro. Quando o ciclo vira, e ele sempre vira, essas empresas descobrem que precisam mostrar EBITDA de verdade, e não métricas criativas inventadas para investidor apressado. Elevar guidance é o último recurso antes de precisar entregar resultado.
Vale prestar atenção no que não está sendo dito. A empresa opera num mercado onde o Pix esmagou margens de todo mundo, onde o Banco Central brasileiro concentrou infraestrutura de pagamento na mão do Estado com o entusiasmo de quem finalmente encontrou um monopólio confortável, e onde a competição virou disputa por migalhas de tarifa. Como se cresce EBITDA nesse ambiente? Cortando custo, o que geralmente significa demitir. Repassando taxa, o que significa cobrar mais do lojista pequeno que não tem alternativa. Ou fazendo aquisição contábil, o que significa comprar concorrente e chamar o resultado de sinergia. Escolha sua favorita.
O que se vê é o comunicado otimista, a alta na cotação, o analista de banco recomendando compra. O que não se vê é o pequeno comerciante que vai pagar taxa maior para que o EBITDA feche, o funcionário que vai ser desligado no próximo trimestre para maquiar margem, e o investidor de varejo que compra a euforia e segura o mico quando o guidance for revisado para baixo daqui a dezoito meses, num parágrafo discreto de release de resultado publicado numa sexta-feira à noite. É sempre assim. A festa é privatizada, o prejuízo é socializado no bolso de quem chegou por último.
A questão mais profunda é por que aceitamos com naturalidade que uma empresa qualquer projete lucro para dois anos à frente como se soubesse o que vai acontecer com juros, câmbio, regulação, tecnologia e comportamento do consumidor. Ninguém sabe. Nem o CEO da WAG, nem o economista-chefe do banco que a cobre, nem o oráculo da CVM. O mercado livre funciona justamente porque agrega informação dispersa em tempo real por meio de preços, e não porque comitês de planejamento acertam previsões. Guidance de EBITDA é a versão corporativa do plano quinquenal soviético, com a diferença de que aqui o custo do erro recai sobre o acionista minoritário em vez do camponês ucraniano.
Enquanto isso, o país continua discutindo se o problema da economia brasileira é a Selic estar em vinte por cento ou o governo gastar quase dois trilhões acima do que arrecada. Empresa de pagamento eleva guidance, jornalista celebra, analista aprova, e ninguém nota que o teatro inteiro só existe porque o dinheiro que financia essa engenharia toda foi impresso em algum lugar e vai cobrar juros de todo mundo, cedo ou tarde. Promessa corporativa não paga imposto, mas quem acredita nela sempre paga.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.