Wagner Moura entrou na lista das cem pessoas mais influentes da revista Time. A crítica de cinema que escreveu o perfil diz que ele é "quase um antídoto" num mundo acelerado. Um antídoto. Pense nisso por um segundo. O sujeito decora falas escritas por outros, repete-as diante de câmeras operadas por outros, em filmes financiados por outros, distribuídos por corporações que faturam bilhões, e isso o torna um antídoto contra alguma coisa. Me diz uma coisa, antídoto contra o quê? Contra a realidade? Contra o tédio de quem confunde entretenimento com pensamento?
A lista da Time é um daqueles rituais anuais que a imprensa internacional celebra como se fosse revelação divina, quando na verdade é pouco mais que um catálogo de relações públicas bem-sucedidas. O mecanismo é velho e transparente: uma revista que já não vende como vendia precisa gerar clique, então monta um ranking onde mistura chefes de Estado com atores de Hollywood, cirurgiões com influenciadores digitais, como se habitassem o mesmo plano de relevância. O resultado é uma lista que não mede influência nenhuma, mede visibilidade. E visibilidade, no mundo em que vivemos, é a moeda mais inflacionada que existe. Qualquer um com um assessor de imprensa competente e uma causa palatável consegue entrar nessa conversa. Influência real, aquela que move instituições, altera incentivos, redistribui poder de verdade, essa opera no silêncio, longe das capas de revista.
Quer dizer, o fazendeiro que alimenta trezentas famílias no interior de Goiás não aparece em lista nenhuma. O engenheiro que projeta ponte em município esquecido não recebe perfil laudatório. O pequeno empresário que mantém doze empregos pagando imposto escorchante sobre cada centavo, esse é invisível. Mas o ator que faz filme sobre ditadura com dinheiro de edital, esse sim é influente. É o velho truque de confundir quem aparece com quem importa, quem performa virtude com quem a pratica no anonimato do dia a dia. A civilização que premia o gesto teatral e ignora o trabalho calado está com as prioridades trocadas, e não é de hoje.
Olha, não se trata de Wagner Moura em particular. O sujeito é ator competente, fez trabalhos respeitáveis, ninguém sensato nega isso. A questão é o que significa quando uma sociedade eleva artistas de entretenimento à categoria de figuras influentes no mesmo patamar de quem decide guerra e paz, taxa de juros, rotas de comércio. Significa que a cultura do espetáculo engoliu a cultura da substância. Significa que o julgamento coletivo já não distingue entre quem produz riqueza e quem produz imagem, entre quem resolve problemas concretos e quem interpreta personagens que resolvem problemas fictícios. O ator virou profeta, o filme virou tratado político, a entrevista no tapete vermelho virou programa de governo. E ninguém parece notar o ridículo.
O mais revelador é o comentário da crítica: "num mundo acelerado, ele é quase um antídoto". Esse "quase" é involuntariamente honesto. Quase um antídoto é o mesmo que não ser antídoto nenhum. É a confissão acidental de que estamos diante de uma projeção, não de uma realidade. Projetamos nos artistas que admiramos as virtudes que gostaríamos de ter e a coragem que nos falta para viver. E então os colocamos em listas, como se isso resolvesse alguma coisa. Enquanto isso, o mundo real segue operando por forças que nenhuma lista da Time jamais vai catalogar, porque as forças reais não posam para foto.
Quando uma civilização não consegue mais distinguir entre influência e fama, entre substância e performance, ela já está vivendo de crédito moral emprestado. A conta, como sempre, chega.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.