Wall Street fechou em alta novamente, e os manchetistas correram para creditar o feito a dois fatores: o balanço espetacular da Nvidia e o suposto degelo nas negociações comerciais entre Washington e Pequim. É a narrativa confortável, a que cabe no título e não exige do leitor mais do que três segundos de atenção. O problema é que ela esconde mais do que revela. Uma única empresa, vendendo um único tipo de produto para uma única bolha tecnológica, move índices inteiros, e isso deveria assustar mais gente do que está assustando. Quando o destino de trilhões em capitalização depende do guidance trimestral de uma fabricante de placas de vídeo turbinadas, o que se tem não é mercado saudável, é cassino com luzes piscando.

O entusiasmo com a Nvidia merece um exame frio. A empresa entrega resultados extraordinários porque a corrida pela inteligência artificial transformou seus chips em commodity estratégica, e ninguém disputa esse mérito. Mas o que está sendo precificado nas ações não é o lucro de hoje, é a fantasia de uma demanda perpétua, financiada por gigantes de tecnologia que captam dinheiro praticamente de graça num ambiente onde o juro real continua deprimido pela ação coordenada dos bancos centrais. Tire a expansão de crédito artificial da equação, e metade dessa demanda evapora. A história econômica está cheia de booms construídos exatamente assim, e todos terminaram do mesmo jeito.

Sobre o tal foco em negociações entre Estados Unidos e China, convém olhar o que se vê e o que não se vê. O que se vê: comunicados oficiais, sorrisos diplomáticos, expectativa de algum acordo parcial sobre tarifas e tecnologia. O que não se vê: a guerra comercial nunca foi sobre comércio, sempre foi sobre poder, e nenhuma das duas potências está disposta a abrir mão da capacidade de sufocar a outra economicamente quando lhe convier. O mercado celebra cada gesto cordial porque precisa de motivo para continuar comprando, mas a estrutura de fundo, com sanções, restrições de exportação e subsídios industriais bilionários dos dois lados, segue intacta. Em alguns meses, basta um discurso mais áspero para o pânico voltar.

Há ainda os dados macroeconômicos, citados sempre como se fossem oráculos. Vendas no varejo, emprego, inflação medida por cestas que ninguém entende e que mudam de composição quando o resultado é inconveniente. Cada divulgação é interpretada conforme o humor do operador, e o mesmo número pode significar coisas opostas dependendo do dia. Inflação caindo vira sinal de corte de juros e euforia. Inflação resistente vira sinal de economia forte e euforia. Desemprego subindo vira sinal de afrouxamento monetário próximo e euforia. Quando todo dado, bom ou ruim, alimenta alta, o que se está vendo não é racionalidade econômica, é vício em estímulo monetário disfarçado de análise técnica.

Siga o dinheiro e o quadro fica nítido. Quem mais ganha com esse rali não é o aposentado americano nem o pequeno investidor brasileiro que comprou ETF achando que era poupança turbinada. Quem ganha são os fundos que estão posicionados há meses, os bancos de investimento que cobram comissão em cada giro, e os executivos das próprias gigantes de tecnologia, que vendem ações ao mercado enquanto repetem em entrevistas que o futuro nunca foi tão promissor. A festa é genuína para uma elite restrita, e o convite para o público geral é sempre emitido perto do fim, quando os de dentro já estão saindo pela porta dos fundos.

O detalhe mais sombrio é que toda essa euforia acontece num mundo onde governos seguem gastando como se não houvesse amanhã, bancos centrais seguem manipulando o preço do dinheiro como se fossem deuses do Olimpo, e nenhum dos problemas estruturais que provocaram as crises anteriores foi sequer endereçado. A dívida americana bate recordes a cada trimestre, a chinesa segue oculta sob camadas de contabilidade criativa, e a europeia é piada pronta. Em algum momento essa orquestra para, e quando parar, vão dizer que ninguém poderia ter previsto. Mentira. Quem quis ver, viu.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.