Wall Street acordou em queda e a explicação está longe de Nova York, num corredor que vai do Estreito de Ormuz até os gabinetes do Pentágono. A escalada verbal entre Estados Unidos e Irã empurrou o petróleo para cima, o dólar para um canto defensivo e as bolsas para o território onde todo investidor sério sabe que vai terminar quando o tambor de guerra começa a bater. Não é novidade, não é surpresa, e principalmente não é acidente. É o padrão de sempre, maquiado de crise inesperada para que os analistas de terno possam fingir que ninguém viu chegar.
Quem acompanha o fluxo de capital entende o roteiro de cor. Tensão no Golfo significa prêmio de risco na commodity, significa custo logístico global subindo, significa margem corporativa comprimida, significa revisão de lucros para baixo. No fim da linha, quem paga a conta é o aposentado que tinha seu 401(k) em fundo indexado e acordou mais pobre sem ter tomado decisão nenhuma. O complexo industrial militar, por outro lado, já abriu o dia no verde. Siga o dinheiro e você encontrará sempre os mesmos sobrenomes na extremidade que recebe, enquanto a extremidade que paga se dilui em milhões de anônimos.
Há algo de tragicômico em ver os mesmos comentadores que juraram que a impressão monetária dos últimos anos era inofensiva agora se espantarem com a fragilidade dos índices diante de um choque exógeno. Quando se infla um mercado com liquidez artificial durante uma década, qualquer brisa geopolítica vira furacão. O problema nunca foi o Irã, a Rússia, a China ou o espantalho da vez. O problema é que se construiu uma economia de papel sobre alicerce de crédito barato, e papel molhado não aguenta vento. O choque externo apenas revela a podridão que já estava instalada.
A reação típica de Washington é previsível e nela reside o verdadeiro custo para o investidor. Vem pacote emergencial, vem gasto extraordinário de defesa, vem nova emissão de dívida, vem pressão sobre o banco central para "acomodar" as circunstâncias. Tradução honesta: o contribuinte americano vai financiar a próxima aventura, e o detentor de dólar no mundo inteiro vai pagar o pedágio via inflação. Chama-se isso de política externa assertiva nos editoriais, mas o nome técnico mais preciso é confisco distribuído, executado com bandeira hasteada e banda tocando.
O investidor brasileiro que olha esse cenário de longe precisa entender que não está assistindo a um filme alheio. Petróleo em alta respinga no câmbio, no IPCA, nos juros futuros e, portanto, na Selic que vai determinar o custo do seu financiamento imobiliário. A globalização monetária amarrou todos os pescoços na mesma forca, e quando o carrasco americano resolve puxar a alavanca, a dança é coletiva. Quem tem ativos reais, ouro físico, terra produtiva, empresas com caixa verdadeiro, sofre menos. Quem tem promessas de papel, títulos públicos de país endividado e fundos multimercado com alavancagem, vai descobrir na carne o que significa risco sistêmico.
Fica a lição que nenhuma faculdade de economia ensina porque comprometeria o emprego dos professores. Mercado não cai por causa de guerra, mercado cai porque estava caro demais e precisava de um pretexto para voltar ao chão. O Oriente Médio é apenas o mensageiro da vez. Matar o mensageiro não vai mudar a mensagem, e a mensagem é simples: dívida soberana descontrolada, expansão militar permanente e banco central subserviente formam a receita infalível do empobrecimento silencioso. Quem não se protege agora pagará a conta depois, com juros compostos e sem direito a reclamação.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.