Os cinco maiores bancos americanos devem anunciar, nesta semana, receitas combinadas de trading na casa dos quarenta bilhões de dólares, o maior volume registrado desde pelo menos 2014. O gatilho foi a escalada do conflito com o Irã, que devolveu ao mercado aquela volatilidade que os operadores de mesa adoram e que os analistas chamam, com assepsia técnica, de "oportunidade". Traduzindo sem anestesia: quanto mais o mundo desestabiliza, mais dinheiro entra no cofre de quem apostou no caos.
Existe uma engrenagem que a imprensa financeira rara vez explica com honestidade. Quando há guerra, há incerteza. Quando há incerteza, há volatilidade. Quando há volatilidade, há volume. E quando há volume, as mesas de operação dos grandes bancos faturam comissões, spreads e ganhos de posição que não aparecem em nenhum discurso presidencial sobre paz e segurança global. O que se vê são as imagens de mísseis e negociações diplomáticas frustradas. O que não se vê, e que aparece apenas nos balanços trimestrais, é o lucro construído milímetro a milímetro sobre cada oscilação de preço gerada pela destruição.
Quarenta bilhões de dólares é um número que merece ser olhado com calma. É mais do que o PIB de muitos países que os Estados Unidos se propõem a defender ou a libertar. É mais do que qualquer programa de ajuda humanitária que esses mesmos bancos jamais financiariam voluntariamente. E é exatamente o tipo de número que não aparece nos noticiários ao lado das reportagens sobre vítimas civis e deslocamentos forçados. A conta está dividida em duas colunas: numa, o custo humano da guerra; na outra, os rendimentos de trading. Só uma dessas colunas é divulgada com pompa e detalhamento nos relatórios para acionistas.
Não se trata de conspiração, e seria intelectualmente desonesto tratá-la como tal. Trata-se de algo mais banal e por isso mesmo mais perturbador: incentivos. Quem lucra com a instabilidade não precisa causá-la ativamente para torcer por ela passivamente. O banco não precisa armar o Irã nem aconselhar o Pentágono, basta que suas mesas de derivativos estejam posicionadas corretamente quando o foguete sair do tubo. O sistema é eficiente nesse sentido perverso: ele recompensa quem soube antecipar o sofrimento alheio e cobrar por isso. Quando os incentivos são esses, perguntar por que a paz parece tão difícil de construir não exige teoria do complô, exige apenas aritmética.
O que torna o momento ainda mais revelador é o contraste com a narrativa dominante. Os mesmos reguladores que passaram a última década construindo um aparato de compliance, stress tests e regras de capital para "proteger o sistema" agora assistem, de camarote, ao resultado: o sistema está ótimo, obrigado, e a proteção funciona muito bem, para ele. O contribuinte americano que socorreu esses bancos em 2008 com trilhões de dólares de dinheiro público assiste agora ao espetáculo de ver essas mesmas instituições registrarem resultados históricos enquanto a tensão geopolítica que financia esses resultados ameaça atingi-lo, de outro modo, no bolso e na segurança. Essa é a lógica do risco socializado e do lucro privatizado, e ela não mudou uma vírgula.
A pergunta que nenhum analista de banco vai fazer na teleconferência de resultados é simples: você preferiria que o Irã estivesse em paz? A resposta honesta, medida em dólares, já está nos quarenta bilhões. O resto é comunicado de imprensa.
Com informações do Financial Times. A análise e opinião são do O Algoz.