Existe uma cena que se repete todo trimestre com a regularidade de um ritual litúrgico: uma empresa de mídia divulga seus resultados, menciona "crescimento em streaming", e as ações disparam. O analista sorri, o trader compra, o CEO recebe o bônus. Ninguém para para fazer a pergunta mais elementar do capitalismo: onde está o lucro?
Wall Street aprendeu, na última década, a separar o preço da coisa e o valor da coisa com uma desenvoltura que beiraria o talento se não beirasse a ficção. Uma empresa pode queimar bilhões de dólares por ano, acumular dívida com a determinação de quem quer quebrar mais rápido, e ainda assim ver suas ações subirem se o discurso for afinado na tonalidade certa. No streaming, a tonalidade é "crescimento de usuários", "receita recorrente", "base de assinantes", palavras que soam a dinheiro sem que dinheiro algum precise aparecer nos demonstrativos.
Para os grandes, que têm escala continental e anos de disciplina de custos arrancada a fórceps de conselhos de administração relutantes, a conta eventualmente fechou. Para os menores, a história ainda está no capítulo em que o herói acumula dívidas e jura que vai dar certo. A diferença prática entre um empreendedor e um dilapidador de capital alheio, neste mercado, é basicamente a capacidade de manter o banker entusiasmado por tempo suficiente. Os que conseguem crédito barato sobrevivem. Os que não conseguem, viram slide de cautela em aulas de MBA.
O mecanismo é mais antigo do que qualquer bolsa de valores. Quando o dinheiro fica barato por tempo demais, quando os juros caem ao chão e o crédito flui sem critério real de alocação, projetos que jamais sobreviveriam ao escrutínio de um investidor prudente ganham vida, carisma e valuation. O problema não é o streaming como formato. O problema é que boa parte do otimismo de Wall Street foi construído num ciclo de crédito que nunca foi para pagar contas reais, mas para sustentar narrativas que se auto-alimentavam. Agora que o dinheiro ficou mais caro, as narrativas começaram a custar.
Siga o dinheiro e você verá o truque. O que Wall Street "ama" no streaming não é o produto, não é a experiência do usuário, não é sequer o potencial real do mercado audiovisual. O que Wall Street ama é o pretexto para movimentar papel. Cada resultado trimestral é uma oportunidade de compra antes e venda depois, e o analista que escreve "manter posição com viés de alta" está, na prática, emprestando sua credibilidade ao ritual. O pequeno investidor, que chega tarde e sai com prejuízo, é a parte não mencionada da equação. O que se vê é o otimismo. O que não se vê é para quem esse otimismo trabalha.
O streaming vai sobreviver como formato, isso é fora de discussão. Mas a pergunta de quando os menores vão lucrar tem uma resposta honesta que nenhum relatório de banco escreve com clareza: a maioria não vai. Vai ser adquirida, fundida, encerrada ou transformada em algo irreconhecível pelos credores. O mercado decide, com a brutalidade característica de quem não tem sentimentos, quem ficou e quem foi embora. Wall Street vai continuar amando o setor até o dia em que não amar mais, e naquele dia vai ser você que estará segurando o papel.
Com informações da CNBC. A análise e opinião são do O Algoz.