Christopher Waller, um dos diretores mais barulhentos do Federal Reserve quando o assunto era pisar no acelerador monetário, agora aparece com cara de quem viu fantasma e pede formalmente que o comitê abandone o viés de afrouxamento. A justificativa? A inflação americana voltou a subir, surpresa surpreendente apenas para quem dorme em cima de manuais que prometem almoço grátis. Quem passou os últimos meses sugerindo cortes sucessivos de juros agora descobre, com a delicadeza de um soco no estômago, que o dinheiro que se cria do nada tem um custo bem real, só que diferido no tempo e cobrado de quem menos pode pagar.

Olha, a cena é quase cômica se não fosse trágica. O sujeito ajuda a alimentar a fogueira, joga gasolina enquanto sorri para as câmeras, e quando o telhado começa a pegar, vira-se para o público e diz, com ar grave, que talvez seja prudente conter as chamas. Quer dizer, o Fed passou anos inundando o sistema com liquidez, expandindo balanço a níveis que nenhuma geração anterior teria coragem de imaginar, e agora age como se a inflação fosse um meteoro caído do céu, um acidente meteorológico, algo exógeno e misterioso. Não é. Foi fabricada na própria sala onde Waller assina seus pareceres.

Me diz uma coisa, quem ganhou com a festa monetária dos últimos anos? Não foi a faxineira de Cleveland nem o aposentado de Tampa. Foi Wall Street, foram os primeiros a receber o dinheiro novo, os bancos que tomaram emprestado a juros simbólicos e emprestaram a juros de mercado, os fundos que compraram ativos antes da onda de liquidez chegar e venderam depois. A inflação que agora preocupa Waller é exatamente o mecanismo pelo qual essa transferência silenciosa se completa: tira poder de compra de quem segura dinheiro e entrega valorização patrimonial a quem segura ativo. Roubo elegante, com terno e gravata, assinado em ata pública.

O que se vê é o pedido tardio de moderação. O que não se vê é a destruição que já está em curso, a poupança corroída de milhões de famílias, os contratos de longo prazo desalinhados, os cálculos empresariais distorcidos por preços que mentem porque a moeda mente. Cada ponto percentual de inflação acima da meta é confisco silencioso, e o confisco não tem volta quando o diretor finalmente se convence de que talvez fosse hora de parar. O dano já está no estômago do consumidor, no preço do feijão, no aluguel renovado, na conta de luz que ninguém entende.

E aqui mora o ponto mais constrangedor da história. Ninguém na imprensa especializada vai apontar a contradição com a clareza que ela merece. Vão chamar de "evolução de cenário", "mudança de comunicação", "ajuste de leitura". A linguagem técnica serve justamente para isso, para envernizar o erro de quem está sentado nas cadeiras que custam caro ao contribuinte. Se fosse um padeiro errando o preço do pão por dois anos seguidos, perderia a padaria. Quando é o banco central errando o preço da própria moeda, ganha entrevista solene no Wall Street Journal.

O recado, no fundo, é o de sempre, e por isso ninguém quer ouvir. Não existe pilotagem fina de economia, não existe sábio iluminado capaz de saber qual o juro certo para trezentos e trinta milhões de pessoas tomando decisões diferentes ao mesmo tempo. Toda vez que um comitê acredita que pode substituir o sistema de preços por sua sabedoria coletiva, o resultado é o mesmo: boom artificial, festa de ativos, e a ressaca chegando pela porta dos fundos, sempre cobrada de quem não foi convidado para a festa. Waller acordou. Pena que a conta já chegou.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.