Jerome Powell saiu de cena e Kevin Warsh assume o comando do banco central mais poderoso do planeta com um sorriso amarelo e um abacaxi nas mãos. O mercado celebrou a nomeação como se tivesse chegado o adulto na sala, alguém que entende de finanças, que conhece Wall Street por dentro, que não vai ceder à pressão política de plantão. Bonito o discurso. A realidade, porém, é que Warsh herda uma estrutura monetária deformada por quinze anos de juros artificialmente baixos, balanço inflado por compras de ativos que nenhum livro-texto sério jamais recomendou e uma economia americana viciada em crédito barato como junkie em heroína.
O dilema que aparece nas manchetes é apresentado como técnico, quase neutro, uma questão de calibragem fina entre cortar juros para sustentar atividade ou mantê-los para domar a inflação remanescente. Quer dizer, é assim que querem que você enxergue o problema, como se fosse engenharia. Não é. É a consequência inevitável de décadas tratando a moeda como brinquedo de político e economista premiado. Quando você expande a base monetária em trilhões para salvar bancos quebrados, financiar guerras impagáveis e bancar pacotes de estímulo eleitoreiros, a conta chega. E ela está chegando agora, no colo do novo presidente.
Olha, vale seguir o dinheiro nesta história, porque ele nunca mente. Quem se beneficiou da era do dinheiro grátis? Os grandes bancos, que tomaram emprestado a custo zero do próprio Fed e emprestaram caro ao público. Os fundos de private equity, que compraram empresas inteiras alavancados em juro negativo real. Os hedge funds, que faturaram fortunas em arbitragens só possíveis num ambiente de liquidez infinita. Wall Street agradece. Quem pagou a conta? O aposentado da Flórida que viu o poder de compra da sua poupança evaporar, o jovem americano que não consegue mais comprar uma casa, o trabalhador que viu o salário real encolher enquanto os ativos financeiros subiam à estratosfera. Almoço grátis para os de cima, jejum prolongado para os de baixo.
O argumento de que o Fed precisa cortar juros agora para evitar uma recessão é a falácia da janela quebrada vestida de doutorado em Harvard. Toda crise causada por intervenção monetária prévia gera o clamor por nova intervenção monetária para curá-la, e cada nova intervenção planta a semente da próxima crise. É uma espiral, não um ciclo, e cada volta deixa a estrutura econômica mais distorcida, mais dependente, mais incapaz de funcionar sem a muleta estatal. Warsh sabe disso, qualquer pessoa minimamente honesta sabe disso, mas o sistema político não permite a única saída saudável, que seria deixar a purga acontecer, os ativos zumbis morrerem e os preços se ajustarem à realidade.
O que vai acontecer, então, é o roteiro de sempre. Warsh vai fazer cara de durão por alguns meses, vai dar entrevistas sóbrias sobre responsabilidade fiscal, vai falar em desinflação gradual e independência do banco central. E quando o primeiro grande banco regional balançar, quando o mercado de Treasuries der sinais de stress, quando o presidente da República ligar reclamando das pesquisas eleitorais, a impressora volta a rugir. Já vimos esse filme. Sabemos o final. A diferença é que cada remake custa mais caro que o anterior, e a plateia, ou seja, você, paga o ingresso em poder de compra evaporado.
O leitor atento deve guardar uma coisa. Banco central não cura crise, banco central fabrica crise. O que chamam de política monetária moderna é apenas o nome técnico do confisco silencioso que financia o Estado inchado, o capitalismo de compadrio e a ilusão coletiva de que é possível consumir sem produzir, gastar sem ganhar, imprimir sem empobrecer. Warsh não veio para mudar o jogo, veio para administrar o desastre da forma mais elegante possível. Reze para que ele seja melhor administrador que os antecessores, porque mudar de verdade ele não vai.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.