O indicado ao comando do Federal Reserve subiu ao palco prometendo preservar a independência do banco central e, no mesmo fôlego, acrescentou a palavrinha que envenena qualquer juramento institucional: limites. É como prometer fidelidade conjugal "dentro do razoável". O mercado financeiro, sempre pronto a aplaudir qualquer gesto que soe tecnocrático, engoliu a declaração como se fosse garantia. Mas quem leu com atenção percebeu o truque retórico: a independência não se promete com asterisco, ou ela existe de fato, ou é peça decorativa que serve para justificar decisões já tomadas nos bastidores da Casa Branca.

A ironia é que ninguém mais acredita mesmo na tal independência. O Fed foi criado em 1913 sob o argumento de afastar a moeda da política, e o que vimos em mais de cem anos foi exatamente o contrário: uma instituição que financiou guerras, inflou bolhas, socorreu bancos falidos com dinheiro do contribuinte e, nas horas de aperto, sempre cedeu ao presidente de plantão. A independência de banco central é o unicórnio da economia moderna, todo mundo jura que existe, ninguém nunca viu. O que existe é um arranjo em que tecnocratas tomam decisões que nenhum parlamento jamais aprovaria às claras, protegidos pela mística do "saber técnico".

Siga o dinheiro, que é onde a história fica interessante. Cada ponto base de juros que o Fed mexe redistribui trilhões entre credores e devedores, entre quem guarda e quem gasta, entre quem produz e quem especula. Uma taxa artificialmente baixa é subsídio disfarçado para o governo endividado, para Wall Street alavancada e para o setor imobiliário inflado. Uma taxa artificialmente alta quebra pequenos negócios e beneficia quem tem caixa. Não existe neutralidade monetária, existe escolha política travestida de fórmula matemática. E quando o futuro chair admite "limites" à sua autonomia, está basicamente dizendo que sabe quem assina o cheque político da sua nomeação.

A parte que ninguém comenta é o que se deixa de ver. Enquanto se discute se o banco central vai cortar ou não meio ponto, ninguém pergunta por que precisamos de um cartel monopolista definindo o preço mais importante de toda a economia, o preço do dinheiro. Em qualquer outro setor, a ideia de um comitê de nove pessoas decidindo em reunião fechada o custo do pão seria considerada digna de regime soviético. Mas quando se trata de juros, a aberração vira ortodoxia, e quem questiona é chamado de radical. A inflação dos últimos anos, aquele imposto invisível que comeu o salário do trabalhador, não caiu do céu, saiu da impressora, e a impressora tem dono.

O mais revelador é a coreografia política em torno da indicação. O presidente quer juros baixos para inflar a economia até a próxima eleição, o indicado promete independência mas sinaliza flexibilidade, o Senado faz teatro de sabatina, e os mercados fingem que estão analisando fundamentos. Todos sabem o roteiro, todos fingem que é improviso. No fim, a moeda que deveria ser reserva de valor vira ferramenta de engenharia social, e o cidadão comum, que não tem lobista em Washington, paga a conta via preço do supermercado, aluguel e combustível. A independência prometida "com limites" é, no fundo, o reconhecimento sincero de que o jogo é esse mesmo.

Quando um banqueiro central promete servir a dois senhores, saiba que escolherá o que paga melhor, e não é você.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.