Kevin Warsh, cotado como próximo presidente do Federal Reserve, andou sugerindo em alto e bom som que muita coisa que hoje aparece como inflação não deveria, tecnicamente, ser chamada de inflação. Tarifas, choques de oferta, regulação que encarece produção, intervenção que distorce preço relativo, nada disso, segundo ele, seria fenômeno propriamente monetário. E aí vem o pulo do gato: se não é inflação no sentido estrito, então o Fed tem espaço de sobra para continuar com a impressora ligada sem se sentir culpado. Quer dizer, o sujeito não está propondo combater a alta de preços, está propondo redefinir o que conta como alta de preços para poder fabricar mais um pouco dela com a consciência tranquila.

Olha, no fundo o argumento tem um fundo de razão técnica que serve de capa de respeitabilidade para o golpe. É verdade que tarifa não é inflação no sentido austero do termo, assim como controle de aluguel não é, e proibição de produção também não é. São governo encarecendo a vida do cidadão por canais não monetários, e a confusão entre essas duas coisas serve há décadas para o Banco Central se eximir da responsabilidade pelo que ele próprio fabrica. Só que Warsh não está fazendo distinção honesta para depurar o debate. Está fazendo distinção interesseira para liberar mais expansão monetária, que é exatamente a inflação no sentido estrito que ele mesmo diz querer combater. É a contradição performática de quem sabe que o público não vai checar a letra miúda.

Me diz uma coisa, qual é a diferença prática, para o sujeito que enche o tanque ou paga o aluguel, entre o preço subir porque imprimiram dinheiro demais e o preço subir porque o governo botou tarifa de cinquenta por cento na chapa de aço? Zero. O bolso esvazia igual. A diferença existe para o economista de gabinete que precisa preencher um relatório do FOMC, não para a dona de casa de Cleveland nem para o caminhoneiro de Dallas. E é exatamente nessa lacuna entre a teoria estreita e a realidade vivida que mora a manobra: ao redefinir a régua, o Fed transfere o ônus do diagnóstico para outra repartição e fica com as mãos livres para continuar fazendo o que faz de melhor, que é diluir o poder de compra do trabalhador americano sob aplauso da imprensa especializada.

Siga o dinheiro e a coisa fica luminosa. Quem ganha com mais expansão monetária? Os primeiros a receber a moeda nova: Tesouro, grandes bancos, fundos, agentes do mercado financeiro, governo federal financiando déficit sem precisar pedir licença ao contribuinte. Quem perde? Os últimos da fila: aposentado, assalariado, poupador, pequeno empresário que vê custo subir antes da receita. Toda redefinição técnica que amplia o espaço para emissão é, na prática, uma transferência de riqueza dos últimos para os primeiros, vestida de jargão monetário. E é por isso que o establishment financeiro de Wall Street e os think tanks que vivem do dinheiro deles vão adorar a tese de Warsh. Já estão adorando.

Tem ainda o pequeno detalhe histórico de que esse truque já foi tentado várias vezes, com nomes diferentes, e sempre acabou mal. O índice de preços ao consumidor americano foi remendado nos anos noventa para tirar do cálculo justamente os itens que mais subiam, sob a desculpa elegante da substituição hedônica. Argentina inventou um INDEC paralelo. Venezuela parou de divulgar índice. Turquia processa estatístico que publica número honesto. A trajetória é sempre a mesma: primeiro se manipula a métrica, depois se manipula o discurso, depois se manipula a moeda, e por último se manipula o cidadão que ainda acreditava que o termômetro estava medindo febre de verdade. O que Warsh propõe é o primeiro passo dessa marcha, embrulhado em papel acadêmico.

O nome disso, sem rodeios, é confisco silencioso. A inflação é o único imposto que o Congresso não precisa votar, que o Judiciário não consegue derrubar e que o cidadão não percebe sendo cobrado até a conta chegar no supermercado. Quando o presidente do Banco Central, em vez de defender o poder de compra da moeda que lhe foi confiada, gasta energia inventando definição mais conveniente para poder emitir mais, ele não está fazendo política monetária, está fazendo política fiscal disfarçada, e a sociedade inteira paga sem ter aprovado a cobrança. Quem aceita esse jogo merece a moeda que vai ter.

Com informações do Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.