A Watts Water acaba de reportar resultados recordes no primeiro trimestre de 2026, e o motivo não é nenhum mistério metafísico, é tubulação. Especificamente, tubulação para resfriar os galpões titânicos onde a tal inteligência artificial mastiga eletricidade em volumes que fariam Tesla parecer um eletricista de bairro. A empresa vende válvulas, sistemas de drenagem, equipamentos de tratamento térmico, e descobriu que o ouro do século não está em California Gold Rush, está no encanamento dos data centers de Virginia, Texas e Phoenix. Cada novo galpão hyperscale consome o equivalente elétrico de uma cidade pequena e o equivalente hídrico de um bairro inteiro, e alguém precisa fornecer os canos. A Watts forneceu, faturou, festejou.
Até aí, capitalismo funcionando como o livro ensina. O problema, como sempre, é o que não aparece na manchete. A pergunta que o release trimestral não responde, e que nenhum analista de banco vai fazer porque banco vive de subscrever IPO de quem está no jogo, é simples; quem está pagando por essa infraestrutura toda? Boa parte desses data centers nasce com créditos fiscais federais, isenções estaduais de ICMS equivalente, tarifas elétricas industriais subsidiadas, e em alguns casos terreno cedido por município ávido por figurar no mapa da modernidade. O lucro é privado, a conta da rede elétrica reforçada é diluída no consumidor residencial que vai descobrir, daqui a dois ciclos tarifários, que sua geladeira ficou mais cara para que um modelo de linguagem possa escrever poesia ruim.
A história econômica é farta em episódios assim, capital migrando em manada para o setor que o governo decidiu abençoar, com resultados que vão do tulipa holandesa ao subprime americano. Quando o Estado declara um setor estratégico, o que ele está dizendo, em linguagem cifrada, é que vai distorcer preços relativos para que esse setor pareça mais lucrativo do que naturalmente seria. O resultado é euforia momentânea, sobreinvestimento, capacidade ociosa três anos depois, e socialização do prejuízo na sequência. A Watts surfa a onda agora, e faz bem em surfar, porque a onda é real enquanto dura. O acionista da Watts vai ganhar dinheiro. Mas o cidadão americano comum, esse vai ganhar conta de luz mais cara e nenhum dividendo.
Há ainda a parte que ninguém quer discutir em voz alta, que é a aliança escandalosa entre Big Tech e Casa Branca em torno da chamada soberania algorítmica. Bilhões em garantias federais, contratos do Pentágono, parcerias com laboratórios nacionais, tudo embrulhado no papel celofane da segurança nacional contra a China. É o velho casamento entre empresário grande e burocrata grande, com o pequeno empresário pagando o buquê. A Watts Water não inventou esse arranjo, apenas ocupou o nicho racional que ele criou. Mas o arranjo existe, e produz exatamente o tipo de concentração de poder que sempre antecede o ciclo seguinte de regulação punitiva, quando o vento político virar e os mesmos políticos que abençoaram a farra vierem cobrar os pecados.
O leitor que tem ações da Watts pode comemorar, e está no seu direito. O leitor que olha para isso e acha que estamos diante de um milagre da inovação privada precisa lembrar que o milagre tem patrocinador, e o patrocinador tem CNPJ no Tesouro. A inteligência artificial pode até ser revolucionária, ninguém aqui está negando, mas a forma como sua infraestrutura está sendo construída tem mais a ver com mercantilismo século vinte e um do que com livre mercado. Resfriar servidor com dinheiro do contribuinte é a versão moderna de construir caravela com ouro do rei.
No fim do trimestre que vem, a Watts vai reportar mais um recorde, a Nvidia vai reportar mais um recorde, e o consumidor vai reportar mais uma conta. A diferença é que só os dois primeiros saem na capa do jornal econômico. O terceiro só aparece quando vira passeata.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.