A Índia acordou esta semana com a notícia de que a monção, aquela chuva sagrada que decide se trezentos milhões de famílias rurais vão comer ou apertar o cinto, deve vir mais fraca do que o esperado. Os jornais de Mumbai já calculam o impacto na inflação de alimentos, na produção de arroz, no consumo das aldeias, no PIB. Os economistas de banco, sempre solícitos, sugerem que o Banco Central da Índia segure os juros, que o governo amplie os programas de transferência, que se importe trigo, que se subsidie fertilizante. Quer dizer, o céu falha e a resposta é sempre a mesma: mais Estado, mais intervenção, mais imposto disfarçado de socorro.

Olha, a Índia rural não está vulnerável à chuva porque a chuva é instável. A chuva sempre foi instável. O problema é que sessenta e cinco anos de planejamento agrícola transformaram o campo indiano numa colcha de retalhos de subsídios cruzados, preços tabelados, monopólios estatais de compra de grãos e regulações que fazem da terra uma prisão jurídica. O camponês indiano não pode vender livremente para quem pagar mais, não pode estocar acima do limite imposto, não pode plantar o que quiser sem perder o subsídio, e ainda paga, via inflação monetária crônica, pelo privilégio de ser tutelado. A monção fraca é só o estopim. A pólvora foi armazenada por décadas de pretensão tecnocrática.

Siga o dinheiro e a coisa fica nítida. Quem ganha com o sistema de preço mínimo do arroz e do trigo? Os grandes produtores do Punjab e de Haryana, politicamente organizados, que abastecem os armazéns estatais a preço garantido enquanto o pequeno camponês de Bihar vende na beira da estrada por uma ninharia. Quem ganha com o subsídio ao fertilizante? As estatais químicas e os intermediários que desviam quase metade do volume para o mercado paralelo. Quem ganha com o programa de distribuição de alimentos baratos? A burocracia que administra trinta e cinco milhões de toneladas de grãos por ano, com perdas de armazenamento que envergonhariam qualquer mercearia. E quem paga? O contribuinte urbano, o consumidor que sofre inflação, e, ironicamente, o próprio camponês pobre que o sistema diz proteger.

É preciso enxergar o que não se vê. Veem a colheita salva pelo subsídio, ninguém vê o agricultor que não plantou hortaliças de maior valor porque o sistema premia o cereal estatizado. Veem o saco de arroz barato no balcão público, ninguém vê o pequeno comerciante que faliu porque não consegue competir com o preço artificialmente esmagado. Veem a transferência emergencial em ano de seca, ninguém vê as cinco safras anteriores em que o camponês foi proibido de enriquecer livremente para ter que pedir esmola burocrática na sexta. Toda intervenção gera a próxima, toda distorção exige nova intervenção corretiva, e o resultado, depois de gerações, é um setor inteiro incapaz de respirar sem oxigênio estatal.

O mais cômico é o discurso de que a culpa é do clima, da geopolítica, do dólar, da guerra na Ucrânia, do El Niño, de Marte em escorpião. Tudo, menos a verdade óbvia: nenhuma agricultura do mundo livre depende tanto do humor meteorológico como aquela que foi sufocada por planejamento central. O agricultor americano enfrenta secas piores e não vira manchete de crise nacional. O produtor neozelandês opera sem subsídio desde os anos oitenta e prospera. A diferença não está nas nuvens, está na liberdade de calcular, de estocar, de hedgear, de inovar, de errar e refazer sem precisar de autorização de funcionário público. Onde o preço é livre, o mercado se adapta. Onde o preço é decretado, qualquer brisa vira furacão.

A monção fraca de 2026 vai passar, como passaram as de 1972, 1987, 2002 e 2015. O que não passa é a fé religiosa do tecnocrata em sua própria capacidade de organizar a vida de oitocentos milhões de pessoas a partir de uma planilha em Nova Délhi. A Índia poderia ser hoje o celeiro do mundo, com sua terra fértil, sua mão de obra abundante, sua tradição agrícola milenar. É, em vez disso, um caso clínico de como o desejo de proteger destrói mais do que qualquer estiagem. Quando o céu fecha, a conta chega para quem nunca foi consultado e nunca pediu socorro. O resto é literatura de gabinete.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.