Toda vez que uma empresa listada anuncia novo CFO com fanfarra de release, vale abrir o balanço antes de aplaudir. A WELL Health é uma companhia de saúde digital canadense que cresceu na base da aquisição em série, endividou-se para comprar clínicas e plataformas, e agora precisa mostrar que aquele monte de goodwill no ativo vale mais do que o papel em que foi contabilizado. Chamar uma executiva nova para arrumar a casa é sinal claro de que a casa está bagunçada. Ninguém troca o diretor financeiro quando o caixa está gordo e os credores estão felizes.
O nome de Evelyn Sutherland vem carimbado com o currículo que o mercado adora ler em voz alta, passagem por companhias de capital aberto, experiência em fusões e aquisições, verniz de disciplina financeira. É a coreografia de sempre. O comunicado fala em otimização de estrutura de capital, o que é o eufemismo corporativo para dizer que alguém vai ter que rolar dívida cara em ambiente de juros que não voltam ao regime de festa monetária de dez anos atrás. Quando a torneira do crédito barato fecha, aparece o boletim escolar de quem construiu império comprando empresa com dinheiro emprestado.
Aqui mora a lição que quase ninguém quer aprender. Durante quase uma década, os bancos centrais do mundo desenvolvido rebaixaram juros a patamares que faziam qualquer projeto de fluxo de caixa negativo parecer genial. Startups de saúde digital, plataformas de tudo quanto é coisa, roll-ups em série, todos brincaram de crescer com dinheiro que não era deles a custo próximo de zero. Não era mágica de gestão, era subsídio disfarçado de política monetária. Quando o custo do dinheiro volta a existir, a maré baixa, e aí a gente descobre quem estava nadando pelado. Trocar CFO nessa hora é botar toalha em quem já está sem calção.
Vale seguir o rastro do capital. Quem financiou a expansão? Fundos institucionais que precisam de retorno. Quem paga a conta quando o retorno não vem? Acionista minoritário, funcionário que recebe parte em opção e, no limite, o próprio consumidor via preço mais alto do serviço de saúde. O modelo de agregar clínicas em plataforma tecnológica só entrega valor real se houver ganho genuíno de produtividade, não se for apenas engenharia contábil para transformar receita local em múltiplo de mercado. A nova CFO vai ter que decidir se defende o teatro ou se enfrenta o balanço.
Existe algo quase cômico no ritual dessas nomeações. O comunicado sempre diz que a executiva vai trazer rigor, foco em rentabilidade e criação de valor para o acionista. Ora, se isso não estava sendo feito antes, quem estava dormindo no volante? E se estava sendo feito, para que trocar? A verdade que ninguém escreve no fato relevante é mais simples, o CFO anterior ou pediu para sair porque viu o que vinha pela frente, ou foi convidado a sair porque o conselho viu o que vinha pela frente. Nas duas hipóteses, o investidor de varejo é o último a ficar sabendo.
A lição de sempre continua valendo. Empresa não se avalia por press release, se avalia por fluxo de caixa livre, por retorno sobre capital investido, por qualidade de governança e por coerência entre discurso e prática. Título de executivo bonito no LinkedIn não paga dívida vincenda. Se a WELL Health quiser convencer o mercado de que a nova cadeira de CFO é mais do que teatro, terá que mostrar corte de gordura, venda de ativo que não gera caixa e humildade para admitir que parte do crescimento passado foi ilusão contábil financiada por juro barato. Enquanto isso não aparecer no balanço, novo CFO é só figurino novo na mesma peça.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.