A notícia chega com aquele ar de revelação que os relatórios de banco gostam de cultivar. Wells Fargo, depois de meses observando a International Paper cortar gordura, fechar fábricas ineficientes, renegociar contratos e parar de fingir que diversificação aleatória é estratégia, finalmente decidiu elevar o rating. Olha, não foi mágica financeira, não foi engenharia contábil, não foi favor regulatório. Foi a coisa mais antiga e mais subestimada do capitalismo: gente competente fazendo o trabalho que prometeu fazer quando recebeu o capital dos acionistas.
Repare no detalhe que o jornal econômico não sublinha porque não sabe sublinhar. A melhoria operacional vem de decisões duras tomadas dentro da empresa, não de subsídio do Tesouro americano, não de programa federal de "fortalecimento da indústria de celulose", não de tarifa protecionista que blindasse o concorrente brasileiro. Vem de gestão. Vem de empresário olhando planilha e decidindo o que mantém e o que descarta. É o tipo de coisa que num país sério se chama trivial e num país intervencionista se chama milagre.
Compare com o que acontece do lado de cá do equador. Aqui, quando uma empresa do setor de papel e celulose melhora resultado, é porque conseguiu BNDES com juro abaixo do mercado, porque arrancou um regime especial de tributação, porque o governo estadual perdoou ICMS em troca de uma fábrica que talvez seja construída e talvez gere os empregos prometidos. O lucro, quando vem, é parcialmente extraído do contribuinte que nunca foi consultado. Lá fora a empresa convence o mercado, aqui a empresa convence o ministro. Dois mundos, duas civilizações.
E tem outro elemento que o resumo bancário esconde sob a expressão polida "melhorias operacionais". Quando uma companhia desse porte enxuga estrutura, alguém perde emprego, alguém renegocia fornecedor em condição pior, alguma cidade pequena vê uma planta fechar. É doloroso e é necessário. O capital, quando funciona, realoca recursos do menos produtivo para o mais produtivo, e essa realocação é exatamente o que produz salários maiores no agregado, mesmo quando produz sofrimento no particular. Quem promete a você crescimento sem dor está vendendo o que nenhum economista honesto vendeu jamais: almoço grátis.
O recado da elevação do rating, então, é menos sobre a International Paper e mais sobre o sistema que permite a International Paper existir do jeito que existe. Um ambiente onde o preço do papel é descoberto pela demanda real, onde o custo do capital é descoberto pelo risco real, onde a má gestão é punida pela queda no rating e a boa gestão é recompensada pela elevação. Mecanismo simples, antigo, brutal e justo. Tira essa engrenagem e sobra o quê? Sobra o nosso querido modelo brasileiro de capitalismo de balcão, onde o lucro depende menos de eficiência e mais de telefonema.
No fim das contas, o que Wells Fargo fez foi confirmar o óbvio que tantos preferem esquecer. Empresa não enriquece país, empresa serve consumidor; e quando serve bem, enriquece a si mesma e, por consequência, paga salário, paga fornecedor, paga imposto e ainda sobra dividendo. Tudo isso sem decreto presidencial, sem comissão tripartite, sem grupo de trabalho interministerial. A produtividade não pede licença, ela acontece quando deixam acontecer.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.