A West Pharmaceutical Services, que fabrica os tais frasquinhos de vidro e as borrachas de vedação onde mora boa parte das vacinas e injetáveis do planeta, anunciou que retomou a produção depois de um ataque cibernético que derrubou suas operações por dias. O mercado respirou aliviado, as ações tiveram um soluço de recuperação, e a imprensa econômica tratou o episódio como aquela turbulência chata num voo que termina bem. Só que não termina bem. Termina, na verdade, exatamente onde sempre termina: com o consumidor pagando, o regulador engordando e o concorrente que já estava com o pé na porta entrando de mansinho.
Olha, é preciso ter uma certa coragem cínica para tratar como acidente algo que acontece com a regularidade de relógio suíço em empresas que dominam mercados travados pela própria regulação. A West produz frasco farmacêutico aprovado por uma teia de certificações que custa anos e milhões para qualquer concorrente obter. Quer dizer, o ataque derrubou a produção de uma empresa cuja posição de mercado foi construída, em boa parte, pelo Estado dificultando a entrada de competidores. Quando o monopólio sancionado pelo regulador sofre um pane, quem sente é o paciente que precisa do injetável, o hospital que adiou a cirurgia e a farmacêutica menor que não tem fornecedor alternativo porque o regulador inviabilizou os alternativos. O que se vê é a fábrica voltando a operar. O que não se vê é a fila inteira de produtos que ficaram represados, os preços que vão subir nos próximos trimestres, e a justificativa pronta para mais uma rodada de fusão e aquisição no setor.
Me diz uma coisa: como é que uma empresa de embalagem farmacêutica vira infraestrutura crítica de saúde global sem que ninguém perceba? A resposta está na sequência de decisões regulatórias das últimas três décadas, cada uma justificada como pequeno aprimoramento técnico, cada uma elevando a barreira de entrada um pouquinho a mais, até o ponto em que sobraram dois ou três fabricantes no mundo capazes de atender as exigências. Cada cerca foi construída por uma razão que parecia óbvia na época, e quem se atrevia a questionar era acusado de querer envenenar pacientes. Hoje a cerca virou muralha, a muralha virou gargalo, e o gargalo virou ponto único de falha para a cadeia global de injetáveis. Um hacker razoavelmente competente em algum porão consegue, sozinho, fazer o que nenhum competidor pode fazer legalmente: tirar a líder do mercado do ar por uma semana.
E aí entra a parte mais previsível do roteiro, aquela que se repete em cada incidente desde o ataque ao oleoduto americano em 2021. Vai vir o pacote de ciberresiliência, a obrigação de auditoria, o certificado de conformidade, o consultor credenciado, a taxa anual, o relatório trimestral, o oficial de segurança da informação obrigatório por lei. Tudo isso, claro, em nome de proteger o paciente. Siga o dinheiro e verá que cada uma dessas exigências cria um mercado cativo para alguém que estava lobby na semana seguinte ao ataque, propondo justamente o serviço que a nova regulação tornará compulsório. A West vai cumprir, porque tem caixa para cumprir. A concorrente de médio porte que estava começando a ameaçar a fatia de mercado dela, essa é que vai sucumbir sob o peso da nova conformidade. O ataque cibernético, no fim das contas, vai consolidar ainda mais o oligopólio que o ataque expôs.
Há uma ironia profunda aqui que a cobertura econômica de balcão de jornal não captura: o discurso de fragilidade é sempre usado para justificar mais centralização, quando a fragilidade nasceu justamente da centralização anterior. Se houvesse vinte fabricantes de frasco farmacêutico no mundo em vez de três, o ataque a um deles seria notícia de página dois, não manchete global. A solução de mercado é a redundância dispersa. A solução do regulador é sempre a fortaleza única, blindada com mais regras, mais auditoria, mais Estado. E quando a fortaleza única for atacada de novo, e ela será, a receita prescrita será mais fortaleza, mais regra, mais Estado. O paciente que precisa da insulina e o hospital que precisa do anestésico aplaudem, porque ninguém ensinou a essas pessoas que a segurança que o regulador promete entregar é justamente o que o mercado livre teria entregue sozinho, sem cobrar pedágio.
A West voltou a produzir. Ótimo. Mas o ataque já cumpriu sua função histórica, que não é a do criminoso, e sim a do pretexto. Nos próximos meses, vai aparecer alguém num comitê dizendo que precisamos repensar a cadeia farmacêutica global, harmonizar normas, criar um órgão supranacional de ciberproteção setorial, talvez um fundo, talvez um imposto. Cada palavra dessas custa bilhões e produz exatamente zero segurança adicional, porque a próxima brecha será descoberta no dia seguinte ao da nova lei. O que essas palavras produzem, com eficiência notável, é uma classe inteira de gente vivendo da burocracia que elas geram. O hacker derrubou uma fábrica. A reação à derrubada vai derrubar a competição que ainda restava. E o consumidor, esse senhor anônimo que paga por tudo isso no preço final do remédio, continuará achando que está sendo protegido.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.