Há datas que mudam o mundo silenciosamente, sem tanques nas ruas nem manchete em letra garrafal, e 15 de agosto de 1971 é uma delas. Naquele domingo, um presidente americano apareceu na televisão e anunciou, com a tranquilidade de quem comunica uma reforma administrativa, que o dólar não seria mais conversível em ouro. Foi vendido como medida temporária para combater especuladores. Cinquenta e cinco anos depois, o "temporário" virou regime permanente, e o mundo inteiro vive sob as consequências de um decreto que ninguém votou e poucos entenderam.

O que aconteceu ali foi simples e devastador. Até aquela noite, o dinheiro era promessa de algo escasso, custoso de extrair, finito por natureza. Depois daquela noite, o dinheiro virou promessa de promessa, papel lastreado em confiança, confiança lastreada em propaganda. Os bancos centrais ganharam o brinquedo mais perigoso já inventado pela espécie humana, uma impressora sem freio, e descobriram rapidamente que financiar guerra, déficit e clientelismo eleitoral ficava muito mais fácil quando ninguém precisava mais cavar metal nenhum para pagar a conta.

O resultado está em qualquer gráfico que se queira olhar. Salário real estagnado por décadas enquanto os ativos financeiros explodiram. Casa própria virou fantasia geracional. Famílias precisam de dois salários para sustentar o que um sustentava nos anos sessenta. A produtividade subiu, a tecnologia avançou, o trabalhador americano produz mais por hora do que qualquer geração anterior, e ainda assim corre atrás do próprio rabo. Cadê a riqueza? Foi parar em quem está mais perto da torneira da impressora, óbvio. Bancos, fundos, governos, conglomerados. O dinheiro novo entra por cima e escorre devagar até chegar embaixo já corroído pela inflação que ele mesmo criou.

E aí vem a parte cômica, se não fosse trágica. A cada estouro de bolha, a cada crise inevitável produzida pela própria expansão de crédito artificial, os mesmos doutores que causaram a doença reaparecem vendendo o remédio, que invariavelmente é mais da mesma droga. Juros baixos demais geraram bolha imobiliária em 2008? A solução foi juros ainda mais baixos. Os juros mais baixos inflaram tudo de novo? A solução é imprimir mais. Pandemia? Imprime. Guerra? Imprime. Eleição apertada? Imprime. O ciclo de festa e ressaca não é mistério da natureza, é fabricação humana, e quem fabrica não tem o menor interesse em parar de fabricar.

O Brasil conhece esse filme melhor do que ninguém, aliás. Vivemos versão tropical do mesmo enredo desde sempre, com a diferença de que aqui a impressora gira mais rápido e o cidadão já desenvolveu calo. Mas o problema é estrutural, não nacional. Qualquer sistema que entrega a um comitê fechado o poder de decidir quanto dinheiro existe no mundo amanhã está condenado a degenerar em capitalismo de compadrio, em transferência permanente dos produtivos para os conectados, em concentração obscena de riqueza disfarçada de política monetária técnica e neutra. Nada disso é técnico, nada disso é neutro, e quem ainda acredita que é precisa rever a cartilha.

O que 1971 colocou em movimento não foi uma política econômica, foi um modo de vida parasitário. Cinquenta anos depois, a conta está vencida, os juros acumulam, e a única coisa que ainda segura o castelo de cartas é a fé coletiva de que ninguém vai olhar para o lastro. Quando essa fé acabar, e ela vai acabar, o mundo vai redescobrir o motivo pelo qual nossos avós insistiam em algo tão antiquado quanto exigir que dinheiro fosse, de fato, dinheiro.

Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.