Há uma certa ironia, daquelas que só a história costuma fabricar, no fato de que toda a conversa contemporânea sobre 5G, 6G, satélites em órbita baixa e redes mesh quânticas continua dependendo, no fim do fio, de um padrão técnico desenhado em 1973 por engenheiros que trabalhavam num galpão na Califórnia. O Ethernet nasceu modesto, com taxas ridículas para os padrões atuais, e mesmo assim sobreviveu a quatro décadas de tecnologias supostamente revolucionárias que prometeram aposentá-lo. Token Ring morreu. ATM virou nota de rodapé. FDDI sumiu sem deixar saudade. O cabinho azul com conector RJ45 segue lá, plugado no roteador da sua casa e no rack do data center que processa o vídeo que você assiste enquanto reclama do Wi-Fi.

O argumento técnico a favor do fio é prosaico e por isso mesmo poderoso. Velocidade estável, latência baixíssima, imunidade a interferência eletromagnética, segurança física que nenhuma criptografia sem fio consegue replicar. Quem trabalha com edição de vídeo, com servidores, com qualquer aplicação que não tolere o jitter caprichoso das ondas eletromagnéticas atravessando paredes de tijolo, sabe disso há tempos. O Wi-Fi é conforto. Ethernet é compromisso. E há uma diferença civilizacional entre essas duas categorias que nossa época, viciada em conveniência, finge não enxergar.

Vale lembrar que toda essa fantasia de mundo sem fios é, na prática, uma mentira encantadora. A torre de celular precisa de fibra. O ponto de acesso Wi-Fi precisa de cabo. O satélite na órbita baixa fala com uma antena terrestre que despeja os pacotes em, adivinhem, fibra óptica que termina num switch Ethernet. A nuvem, esse substantivo etéreo que os departamentos de marketing adoram, é cabo, cobre e silício suados num galpão refrigerado em algum subúrbio do Texas ou da Virgínia. Quem confunde a metáfora com a coisa, perde a coisa.

Há também uma dimensão política nessa preferência pelo fio que poucos comentam. A conexão cabeada é, por natureza, mais difícil de interceptar em massa, mais difícil de mapear, mais difícil de transformar em vetor de vigilância passiva. O sinal de rádio vaza, sangra pelas paredes, atravessa o quintal do vizinho e pode ser farejado por qualquer coletor de pacotes. O cobre, pelo contrário, exige acesso físico. Numa era em que toda nova geração de protocolo sem fio chega acompanhada de novas capacidades de rastreamento e de novas exigências de identificação compulsória, o velho Ethernet preserva, quase por acidente, uma forma rústica de soberania doméstica.

Os padrões evoluíram, claro, e quem prestou atenção viu o cobre dobrar de capacidade a cada poucos anos sem fazer alarde. Dez megabits viraram cem, depois mil, depois dez mil, e hoje cabos categoria 6A entregam dez gigabits em distâncias razoáveis para uso doméstico avançado. A fibra óptica complementou onde o cobre não chegava, mas o princípio do Ethernet, aquele esquema de quadros, endereços MAC e detecção de colisão adaptado pelo tempo, segue sendo a língua franca de tudo que se conecta. É a base discreta sobre a qual a estridência das novidades se ergue.

A lição, se houver alguma, é que a infraestrutura real raramente tem departamento de comunicação. Ela funciona, dura, suporta o peso, e enquanto os holofotes apontam para o próximo unicórnio que vai revolucionar a maneira como você pede comida, alguém num porão de prédio comercial está crimpando cabo cat6 num patch panel para que o unicórnio não morra na primeira chuva forte. Antes de comprar o próximo gadget sem fio que promete liberdade, vale considerar puxar um cabo até a estação de trabalho. Liberdade técnica costuma ser mais sólida quando vem por dentro de um conduíte.

Com informações da Wired. A análise e opinião são do O Algoz.