Vinte e uma horas. É o tempo que os negociadores americanos e iranianos passaram sentados numa sala em Islamabad tentando encerrar seis semanas de conflito no Oriente Médio. O resultado foi zero, um comunicado de culpas cruzadas e o anúncio, no dia seguinte, de que os Estados Unidos iniciarão um bloqueio naval ao Estreito de Ormuz. Quem ainda acreditava que o problema era falta de diálogo pode atualizar sua visão de mundo.
O acordo naufragou nos mesmos recifes de sempre: Teerã quer controle sobre o Estreito de Ormuz, indenizações de guerra, um cessar-fogo que inclua o Líbano, e, naturalmente, a liberação de ativos congelados no exterior. Washington quer, acima de tudo, uma garantia formal de que o Irã não desenvolverá armas nucleares. Nenhuma das duas partes cede no que é, para ela, questão de sobrevivência. Daí a conclusão óbvia que qualquer observador honesto conseguia ver antes das vinte e uma horas começarem: não havia acordo possível dentro dessas condições. A viagem a Islamabad foi teatro, e o elenco sabia o roteiro desde o primeiro ato.
Siga o dinheiro, porque ele nunca mente quando os políticos mentem. No momento em que as negociações desmoronaram, o Brent subiu oito por cento e voltou a bater cem dólares o barril. Isso não é coincidência, é lógica. O Estreito de Ormuz é o corredor por onde passa algo entre um quinto e um quarto de todo o petróleo que circula no planeta. Quem controla ou ameaça esse corredor controla o preço de tudo que se move, aquece, ilumina ou fabrica no mundo industrializado. O bloqueio anunciado por Washington não é punição ao Irã, é uma faca de dois gumes: pressiona Teerã e, ao mesmo tempo, garante que o petróleo fique caro o suficiente para que determinados bolsos continuem cheios. Pergunte quem lucra com o barril a cem dólares e você terá uma lista bastante reveladora de quem não tem pressa para que essa guerra termine.
Israel complica o quadro de um jeito que nenhum comunicado oficial vai admitir abertamente. Teerã insistiu desde o início que o cessar-fogo acordado em oito de abril cobria também o front libanês. Os americanos disseram que não. Os israelenses seguiram sua ofensiva contra o Hezbollah como se a trégua fosse um documento de outro planeta. O resultado é que o Irã chegou à mesa em Islamabad já desconfiando que o acordo da semana anterior era uma armadilha para paralisar suas forças enquanto um aliado continuava batendo. Não é paranoia, é leitura de precedentes. Acordos bilaterais no Oriente Médio que ignoram a guerra em terceiro teatro não são acordos, são intervalos de combate.
O bloqueio ao Estreito de Ormuz é uma escalada que transforma um conflito regional em problema de toda a cadeia produtiva global. Países da Ásia que dependem do petróleo do Golfo, economias europeias que mal se recuperaram dos choques energéticos da última década, consumidores brasileiros que já pagam combustível em preço de artigo de luxo, todos pagarão a conta de uma decisão tomada em Washington para pressionar uma negociação que fracassou em Islamabad. O custo do conflito é sempre socializado. O lucro nunca é.
O que vem a seguir depende de quanto tempo os dois lados conseguem sustentar essa posição sem que a pressão interna os force a recuar ou avançar. O Irã tem uma população exausta de décadas de sanções e uma economia corroída. Os Estados Unidos têm uma opinião pública que já começa a calcular o preço da gasolina nas eleições de meio de mandato. Cessar-fogos frágeis, como o atual, não são paz, são exaustão temporária disfarçada de diplomacia. E exaustão temporária tem prazo de validade muito curto quando o Estreito de Ormuz está bloqueado e o barril de petróleo testa paciência e bolso simultaneamente. A guerra não termina quando os diplomatas param de falar, termina quando o custo de continuar supera o custo de parar, e por enquanto, para quem importa, ainda vale a pena continuar.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.