Existe uma lógica nessa situação que merece ser examinada com calma, porque é a lógica do Estado em sua forma mais pura e mais reveladora. O Irã fechou o Estreito de Hormuz no fim de fevereiro, quando os bombardeios americano-israelenses começaram. Nas semanas seguintes, Teerã passou a liberar a passagem de alguns navios comerciais mediante pagamento de pedágio, uma extorsão que ao menos tinha a honestidade de se apresentar como extorsão. Ontem, depois que as negociações em Islamabad terminaram sem acordo, Trump anunciou no Truth Social que a Marinha dos Estados Unidos vai bloquear imediatamente qualquer navio tentando entrar ou sair do estreito. O bloqueio do bloqueio. Em questão de horas, o Brent subiu oito por cento e o barril voltou a custar mais de cem dólares. A humanidade contempla, mais uma vez, dois Estados disputando o controle de uma rota que nenhum dos dois construiu e que os dois dizem estar "protegendo".
Vinte por cento do petróleo mundial passa por um canal de trinta e três quilômetros de largura no ponto mais estreito. Qualquer pessoa com um mapa e dois neurônios em funcionamento sabia, há décadas, que depender de um único gargalo para um quinto do abastecimento energético do planeta era uma fragilidade estratégica de proporções bíblicas. Os mercados, deixados relativamente livres, foram construindo rotas alternativas, reservas estratégicas, fontes de produção diversificadas, precisamente porque nenhum agente privado com dinheiro em risco quer depender de um único ponto de falha. Mas o instinto do poder político é exatamente o oposto, porque o poder não perde dinheiro quando as coisas quebram: ele cobra impostos. E chokepoints são a forma perfeita de poder, porque quem controla o gargalo controla tudo que passa por ele, e quem controla tudo que passa por ele cobra pela passagem, com ou sem uniforme.
Siga o dinheiro, que é onde a história sempre se resolve. Com petróleo a cem dólares o barril, os produtores americanos de shale, que ficam no vermelho quando o preço cai abaixo de oitenta, voltam a ser rentáveis com margem generosa. A Arábia Saudita, cujo orçamento público só fecha perto dos noventa dólares o barril, resolve seus problemas fiscais sem precisar fazer nenhuma reunião desconfortável. Quem opera frotas de sombra vendendo petróleo iraniano e russo para compradores asiáticos que não participam de nenhuma sanção ocidental lucra em silêncio enquanto as câmeras apontam para Hormuz. E o consumidor americano, europeu, brasileiro, japonês e de qualquer país que depende de frete, combustível ou manufatura paga a conta no posto, no supermercado e na conta de luz. Esse é o mapa do dinheiro. Não é nenhum mistério, mas ninguém vai aparecer em coletiva de imprensa para explicá-lo com essa clareza.
O que se apresenta como decisão de segurança nacional é, na prática, um imposto regressivo cobrado de toda a humanidade. Cada dólar que o barril sobe acima do preço que o mercado formaria em condições normais é uma transferência de riqueza do consumidor para o produtor, do trabalhador para o rentista, do importador dependente para o exportador privilegiado, mediada não pela troca voluntária mas pelo porta-aviões. A diferença entre o preço de mercado livre e os cento e quatro dólares de hoje é exatamente a conta da diplomacia falhada e do intervencionismo militar, e ela é paga por quem nunca sentou em nenhuma mesa em Islamabad, nunca votou em nenhum presidente americano e nunca escolheu que vinte por cento do petróleo mundial passasse por um único canal no Golfo Pérsico.
A ironia mais densa, a que nenhum porta-voz oficial vai mencionar, é que os dois bloqueios têm efeito idêntico no terminal de gasolina de qualquer cidade do mundo: o preço sobe. O iraniano cobra pedágio com o nome de "taxa de passagem soberana". O americano cobra pedágio com o nome de "segurança da navegação internacional". O consumidor, que não foi consultado por nenhum dos dois e que não declarou guerra a ninguém, paga os dois ao mesmo tempo. Chame isso de geopolítica, de realpolitik, de estratégia de contenção nuclear, dê o nome que quiser. No fim, é o mesmo mecanismo de sempre: quem tem a arma cobra a passagem, e quem não tem a arma paga.
Toda vez que dois Estados resolvem disputar o controle de uma rota que o comércio construiu e a civilização depende, a conta não vai para os generais, não vai para os negociadores, não vai para os presidentes que postam no Truth Social às onze da noite. A conta vai para o caminhoneiro que abastece, para a mãe que compra frango no mercado, para o industrial que calcula o custo do frete. O poder nunca paga pelo caos que cria; ele só cobra pelo caos que criou.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.