Imagine a cena, que de tão banal já virou paisagem. O sujeito entra no mercado, pega o frango, olha a etiqueta e resmunga que está caro. Em seguida, vem o colunista de economia, depois o deputado, depois o ministro, e todos repetem em coro a mesma ladainha de que "alguém precisa fazer alguma coisa". A solução proposta é sempre a mesma desde o tempo de Diocleciano, e fracassa pelos mesmos motivos desde o tempo de Diocleciano. Tabela. Teto. Confisco simbólico. Acusação de ganância contra o supermercado, contra o frigorífico, contra o produtor, contra o caminhoneiro, contra qualquer um que esteja na cadeia, exceto, claro, contra quem imprimiu a moeda que derreteu o salário no bolso do consumidor.
O detalhe que escapa a esses estrategistas de boteco com diploma é que o frango não tem preço justo. Nem o frango, nem o ovo, nem o pão, nem o litro de gasolina. Preço não é atributo da coisa, é juízo de quem compra e de quem vende, encontrando-se no balcão. É informação condensada sobre escassez, sobre desejo, sobre safra, sobre custo de ração, sobre câmbio, sobre o frete que subiu porque o diesel subiu porque o governo mexeu no tributo na semana passada. Cada etiqueta naquela gôndola é o resumo de milhões de decisões dispersas que nenhum gabinete, por mais informatizado que seja, consegue replicar. Quem acha que sabe o preço certo do frango, quer dizer, quem acha mesmo, está apenas confessando que não entende o que é um preço.
Aqui mora a soberba que custa caro. O planejador olha para o mercado e enxerga caos onde existe ordem, enxerga abuso onde existe sinal, enxerga ganância onde existe coordenação. Ele acredita, com a fé inabalável dos que nunca tiveram que tocar um negócio, que se decretar o preço do frango em metade do valor, o frango vai aparecer na prateleira pela metade do valor. O que aparece, na prática, é prateleira vazia, fila, mercado paralelo e o mesmo frango pelo dobro, vendido por baixo do balcão para quem tem o contato certo. A história já contou esse filme tantas vezes que repeti-lo é quase uma forma de comédia, não fosse trágico para quem precisa comer.
E olha, me diz uma coisa, por que nunca se pergunta de onde veio a inflação que encareceu o frango antes de criminalizar quem o vende? A resposta é incômoda demais para virar manchete. O frango ficou caro porque a moeda ficou barata, e a moeda ficou barata porque alguém, em algum lugar protegido por mármore e segurança armada, decidiu financiar gastança imprimindo papel. O imposto inflacionário é o tributo mais covarde que existe, porque não passa pelo Congresso, não pede licença, não aparece no holerite, e ainda permite que o mesmo governo que provocou o estrago apareça depois fantasiado de salvador, prometendo combater o "abuso dos comerciantes". É o piromaníaco vendendo extintor.
Siga o dinheiro e a fantasia desaba. Quem ganha quando se demoniza o preço de mercado? Ganha o burocrata, que justifica cargo. Ganha o político, que vende discurso de proteção ao pobre enquanto empobrece o pobre com cada nova rodada de impressão monetária. Ganham os amigos do rei, que conseguem isenção, subsídio, cota, reserva de mercado, enquanto o pequeno comerciante quebra tentando cumprir uma tabela impossível. Quem perde é sempre o mesmo, o sujeito da fila, o consumidor anônimo, o produtor honesto que não tem lobista em Brasília, o aposentado que via no frango do domingo a única lembrança de dignidade da semana.
O frango, portanto, nunca é só um frango. É um espelho. Quando o cidadão olha aquela etiqueta e se irrita, ele está irritado com a coisa errada. A culpa não é do açougueiro, é de quem corroeu a moeda no bolso dele e agora aponta o açougueiro como bode expiatório. Enquanto a sociedade aceitar essa inversão, vai continuar comendo cada vez menos e batendo palma para cada vez mais decreto. A liberdade econômica não é luxo de teórico, é o nome técnico do direito de comprar a própria comida sem pedir licença a um burocrata que nunca cozinhou na vida.
Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.