Imagine um país onde tudo é controlado. O preço do pão, o horário do comércio, o conteúdo da escola, o tom do jornal, o tamanho do salário, a quantidade de açúcar no café. Imagine que esse país, depois de gerações inteiras vivendo sob essa engenharia minuciosa do cotidiano, comece, lentamente, a se libertar. Como isso acontece? Não acontece por decreto. Nunca aconteceu por decreto. A liberdade jamais foi entregue de bandeja por um governante iluminado que, num belo dia, resolveu desapertar o cinto da sociedade por pura generosidade. A liberdade aparece quando o custo de manter as pessoas presas se torna maior do que o custo de soltá-las, e isso só ocorre quando essas pessoas, individualmente, em milhões de pequenos gestos silenciosos, deixam de cooperar com a própria opressão.
O processo começa sempre no mesmo lugar, e esse lugar não é o parlamento nem a praça pública. Começa na cabeça do sujeito que, depois de anos pagando propina para abrir uma padaria, decide vender pão sem licença. Começa na mãe que tira o filho da escola estatal porque percebeu que ali ele aprende a obedecer e a odiar a si mesmo, mas não aprende a ler direito. Começa no agricultor que esconde parte da colheita do coletor de impostos. Começa no jornalista que escreve aquilo que não pode ser escrito, no pastor que prega o que não pode ser pregado, no comerciante que faz câmbio paralelo porque a moeda oficial virou piada. A sociedade não se liberta marchando, ela se liberta desobedecendo em escala suficiente para que o aparato repressivo não dê mais conta. É exatamente o oposto do que ensinam nas universidades, e por isso mesmo as universidades são as últimas a perceberem que algo mudou.
Quer dizer, existe uma falácia muito repetida segundo a qual a liberdade é fruto da educação, da consciência cívica, do amadurecimento das instituições. Bobagem. A liberdade é fruto da exaustão. Quando o povo se cansa de fingir que acredita, quando o burocrata se cansa de fingir que governa, quando o policial se cansa de prender vizinho por crimes inventados, quando o juiz se cansa de aplicar lei que ele próprio sabe ser injusta, o edifício inteiro começa a rachar. E aí entra o detalhe que os planejadores de plantão nunca enxergam: o conhecimento necessário para tocar uma sociedade está espalhado entre milhões de indivíduos, cada um com seu pedacinho da realidade, e nenhum comitê central, por mais bem intencionado, consegue replicar essa inteligência distribuída. Quando as pessoas começam a operar fora do sistema, fazem isso porque o sistema oficial parou de funcionar há muito tempo, e elas estavam apenas esperando coragem coletiva para admitir.
Há, porém, um obstáculo que poucos mencionam, e ele é cultural antes de ser econômico. Décadas de tutela criam um tipo humano peculiar, o cidadão infantilizado, aquele que reclama do Estado de manhã e exige que o Estado resolva seu problema à tarde. Esse sujeito é o último a aderir à liberdade, porque a liberdade exige dele algo que ele desaprendeu a fazer: assumir responsabilidade pelas próprias escolhas. Toda transição da servidão para a autonomia passa por essa fase desconfortável em que parte da população, em vez de comemorar o fim das amarras, chora pela volta do amo. Isso não é fraqueza, é hábito. O músculo da liberdade atrofia quando não é usado, e leva tempo para voltar a funcionar. Quem promete revolução libertária em quatro anos não entendeu nada da natureza humana, e provavelmente vai entregar apenas a troca de tirano.
O elemento decisivo, no fim das contas, é a moeda. Enquanto o governo controlar o dinheiro, controla tudo o mais, porque controla a unidade de medida pela qual cada cidadão calcula sua própria vida. Sociedades que se libertaram de verdade fizeram, em algum momento, a escolha radical de tirar das mãos do Estado o monopólio de imprimir papel pintado e chamar de riqueza. Pode ser via padrão metálico, pode ser via moedas privadas, pode ser via concorrência cambial, pode ser via tecnologias novas que o legislador ainda não conseguiu sufocar. Mas, sem essa ruptura, qualquer liberdade conquistada nos demais campos é provisória, porque basta o governo apertar o botão da impressora para confiscar, por inflação, tudo o que o cidadão pensava ter acumulado em propriedade e em poupança. Liberdade econômica sem reforma monetária é castelo de areia em véspera de maré alta.
No fim, a sociedade que escolhe a liberdade em meio a um mundo de gaiolas faz algo profundamente impopular e profundamente necessário: aceita pagar o preço da incerteza em troca da dignidade de decidir. Não há paraíso ao final do caminho, há apenas a possibilidade de errar por conta própria, em vez de errar por conta do planejador. Isso, para quem já provou o gosto, vale qualquer custo. Para quem ainda não provou, parece loucura. E é exatamente nessa diferença de paladar que se decide o destino dos povos. Quem prefere a coleira limpa ao mato cheio de espinhos nunca vai entender por que alguém escolhe o mato; e quem já caminhou no mato uma vez não consegue mais respirar dentro de coleira nenhuma.
Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.