A moda nos corredores dos fundos de Wall Street, replicada com atraso pelos gurus de LinkedIn no Brasil, é que em breve teremos uma economia operada por agentes de inteligência artificial negociando com outros agentes de inteligência artificial, sem intervenção humana, produzindo uma eficiência tão sobrenatural que o próprio conceito de mercado ficaria obsoleto. É bonito no slide do PowerPoint, rende matéria no Valor e faz o ministro da Fazenda babar pensando em tributar máquina. Só tem um probleminha: não funciona, não pode funcionar, e quem entende meia dúzia de coisas sobre como preços nascem sabe disso desde a década de 1920.

Preço não é um número que cai do céu nem uma saída estatística de modelo treinado em dataset histórico. Preço é o resultado concreto de milhões de seres humanos, cada um com seu pedaço particular de informação, suas preferências subjetivas, seus medos, suas esperanças, suas apostas e seus erros, convergindo num ponto onde alguém topa vender e alguém topa comprar. É a única máquina de descoberta de verdade sobre escassez que a humanidade já conseguiu produzir, e ela funciona porque existe gente de carne e osso arriscando patrimônio de verdade. Tire os humanos da equação, coloque dois algoritmos treinados em dados do passado negociando entre si, e você não tem descoberta de preço, tem um cassino onde as máquinas apostam no que outras máquinas vão fazer.

É o retorno, por caminho tecnológico, da mesma fantasia que produziu fome na Ucrânia e filas de pão em Havana. A crença de que um sistema suficientemente inteligente, seja ele um comitê de doutores em Moscou ou uma rede neural em Palo Alto, pode substituir o conhecimento disperso de milhões de pessoas operando em liberdade. Não pode. Nunca pôde. O conhecimento que importa para a economia não está em nenhum banco de dados, não cabe em nenhum servidor, não pode ser treinado em nenhum modelo, porque é tácito, local, momentâneo e existe apenas na cabeça de quem está vivendo a situação concreta naquele exato segundo. O padeiro sabe do bairro o que a IBM nunca saberá.

E siga o dinheiro, que a conversa fica mais clara. Quem vende essa narrativa de economia autônoma de agentes? Exatamente as mesmas consultorias que precisam justificar contratos bilionários de transformação digital, os mesmos fundos que querem vender produtos estruturados em cima de hype, os mesmos reguladores que sonham em controlar via API o que nunca conseguiram controlar via papel timbrado. Quando uma ideia beneficia simultaneamente a Goldman Sachs, o Banco Central Europeu e o Fórum Econômico Mundial, você pode apostar a casa que o cidadão comum vai pagar a conta no fim do mês.

Pior ainda, quando bots começam a fazer mercado com outros bots em escala, o que você produz não é eficiência, é fragilidade sistêmica industrial. Flash crashes viram rotina, correlações espúrias viram lei, e na hora que a coisa desaba, ninguém sabe explicar por que, porque o modelo é caixa-preta até para quem o programou. Aí chega o salvamento com dinheiro público, privatização do lucro e socialização do prejuízo, que é o esporte favorito dessa turma desde 2008. O nome disso não é capitalismo, não é livre mercado, não é tecnologia libertadora. É capitalismo de compadrio turbinado por GPU, e custa caro.

A economia de mercado não é um problema de otimização que espera processador mais rápido para ser resolvido. É uma ordem espontânea que emerge da liberdade de pessoas reais trocando bens reais por dinheiro real. Substitua qualquer um desses três elementos por simulacro e você não tem mercado, tem teatro. E teatro, por mais caro que seja o figurino, não produz riqueza. Produz platéia iludida e dramaturgo enriquecido.

Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.