Existe um momento exato em que uma república deixa de ser república e passa a ser outra coisa, mais barulhenta, mais cara e infinitamente mais perigosa para o próprio povo que a fundou. Nos Estados Unidos esse momento tem data e tem mapa: o fim dos anos 1890, quando Cuba, Porto Rico, Guam e Filipinas foram engolidos sob o pretexto de libertar nativos da Espanha decadente. Libertar, claro, é um verbo elástico. Os filipinos, que tiveram a ingenuidade de acreditar no discurso, levaram alguns anos de guerra suja, campos de concentração e centenas de milhares de mortos para entender que troca de senhor não é emancipação, é mudança de gerência.
O detalhe que os manuais escolares evitam é que essa virada não nasceu de uma demanda popular por glória imperial. Nasceu, como quase tudo o que dá errado em política, de um arranjo bem específico entre quem queria mercados garantidos, quem queria contratos navais, quem queria carvão nas rotas do Pacífico e quem queria manchete patriótica para vender jornal. Siga o dinheiro e você encontra os mesmos suspeitos de sempre: estaleiros, açucareiros, banqueiros com empréstimos a proteger, missionários com almas a contabilizar e jornalistas com tiragem a inflar. O cidadão comum entrou na história só na hora de morrer no Caribe de febre amarela ou de pagar o imposto que sustentava o feito heroico.
O argumento oficial era nobre como sempre é. Levar civilização, ordem, comércio e bons costumes a povos atrasados que, segundo se dizia, não saberiam governar a si mesmos. É um argumento que funciona porque inverte a culpa. A vítima vira incapaz, o agressor vira tutor, e a violência vira pedagogia. Quem quer mandar nos outros para o bem dos outros nunca para, porque a própria consciência o aplaude. É uma forma de tirania mais difícil de combater do que a tirania crua, justamente porque se apresenta com sotaque humanitário e crachá de boas intenções.
O que se viu naquela virada de século foi fácil de perceber: bandeiras novas em ilhas distantes, desfiles, discursos, medalhas. O que não se viu foi o que mais importava: o crescimento permanente do aparato militar, a captura do Tesouro pelos fornecedores da guerra, a normalização do imposto federal pesado, o nascimento de uma elite burocrática que existia para administrar conquistas e que, naturalmente, precisava de novas conquistas para continuar existindo. Toda guerra externa é, lá dentro, uma transferência silenciosa de poder do cidadão para o burocrata, do produtor para o contratista, do contribuinte para o lobista fardado.
A república dos fundadores foi pensada com desconfiança feroz de exércitos permanentes, dívidas intermináveis e aventuras estrangeiras. Sabia-se, por leitura de história e não por intuição, que toda potência que cruza o oceano para civilizar os outros volta com o hábito de civilizar os de casa. E foi exatamente o que aconteceu. O mesmo Estado que aprendeu a censurar correspondência em Manila aprendeu a vigiar dissidentes em Chicago. O mesmo Tesouro que financiou ocupação no Caribe aprendeu a financiar qualquer coisa imprimindo papel. A impressora monetária moderna, com seu cortejo de inflação crônica, é prima direta dos canhões de 1898. Quem aceita pagar a conta da glória aceita pagar a conta de tudo.
O incômodo dessa história não está no passado, está no espelho. Toda vez que um governo descobre uma missão sagrada lá fora, vale conferir quem assina os contratos, quem ganha as licitações, quem fatura nos bastidores e quem, no final do mês, recebe o boleto disfarçado de imposto, de inflação ou de juro. Império é caro, e quem paga não é quem decide. A república morre devagar, sempre aplaudida, sempre em nome de algo nobre, sempre com banda tocando. Quando a banda para, sobra a conta.
Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.