Houve um tempo em que mudar para a Califórnia era sinônimo de subir na vida. Hoje, mudar da Califórnia é sinônimo de salvar a vida financeira. O estado mais rico da União Americana, dono de PIB maior que o do Reino Unido, vê fileiras de caminhões de mudança cruzarem a fronteira do Texas, da Flórida e do Arizona carregando engenheiros, empresários, famílias inteiras que cansaram de pagar caro para viver mal. Não é fenômeno climático, não é pandemia, não é azar. É política pública funcionando exatamente como foi desenhada para funcionar, embora ninguém entre os arquitetos tenha coragem de admitir.

Olha, o que torna o caso californiano didático é que ele desmente, com a brutalidade dos fatos, a tese de que basta ter sol, praia, Vale do Silício e Hollywood para uma economia prosperar. A Califórnia tem tudo isso e mesmo assim consegue empurrar seus próprios moradores para fora. Casa de classe média no entorno de São Francisco custa o que custaria um pequeno palácio em qualquer cidade decente do interior americano. Não porque falte terra, sobra terra. Falta permissão para construir nela. Décadas de regulação ambiental, zoneamento restritivo e veto municipal transformaram o direito de erguer um teto em privilégio raro, distribuído por burocratas a quem souber esperar dez anos por uma assinatura. O resultado é matemática elementar: oferta sufocada, demanda crescente, preço pelas nuvens. Quem ainda acredita que controle de aluguel resolve o que regulação criou precisa de aulas particulares de causa e efeito.

Some-se a isso a alíquota de imposto de renda estadual que beira a indecência, a maior dos Estados Unidos, e o quadro fica claro. O californiano paga caro pelo Estado e recebe em troca ruas tomadas por barracas, transporte público que parece cenário pós-apocalíptico e escolas que despencam em todos os rankings. Quer dizer, é o pior dos dois mundos: tributação europeia com serviço de país falido. E quando o cidadão médio percebe que pode pagar metade desse imposto e ter o dobro de qualidade de vida quinhentos quilômetros adiante, ele faz o que qualquer pessoa racional faria. Pega o U-Haul e some.

Siga o dinheiro e o enredo se ilumina. As cidades californianas gastam fortunas em programas de combate aos sem-teto enquanto a população de sem-teto cresce ano após ano. Curioso, não? É como bombeiro que recebe por incêndio apagado e descobre que pode ganhar mais se houver mais incêndio. A indústria do problema social é hoje empregadora robusta, com ONGs, consultorias, secretarias inteiras vivendo da perpetuação daquilo que prometem resolver. Cada eleição reforça o arranjo, porque quem se beneficia da máquina vota disciplinadamente nos que mantêm a máquina funcionando. O contribuinte paga, o lobista recebe, o morador de rua continua na rua, e os jornais explicam que a culpa é do capitalismo selvagem.

Agora a peça final entra em cena. A ala que considera a atual Califórnia um lugar excessivamente liberal está em ascensão, ganhando prefeituras, cadeiras no legislativo estadual, influência nas convenções partidárias. Para quem não acompanha, é o equivalente a chegar num restaurante que está afundando por excesso de pratos caros e mal feitos, e ouvir o gerente dizer que a solução é dobrar os preços e contratar mais cozinheiros do mesmo. O diagnóstico desses recém-empoderados é que falta Estado, falta imposto, falta controle. Como se o problema do paciente em hemorragia fosse retirar mais sangue. A história econômica do século vinte registrou, em letras de fogo, o que acontece com economias que seguem essa receita até o fim. Mas há algo no espírito humano que insiste em achar que desta vez vai dar certo, basta que sejamos nós a mexer no botão.

O caso californiano não é apenas tragédia local. É espelho. Toda vez que um governo decide que sabe melhor que milhões de pessoas onde elas devem morar, quanto devem ganhar, o que devem produzir e como devem viver, o desfecho é sempre o mesmo: os mais talentosos vão embora, os mais produtivos se escondem, os mais pobres ficam presos, e os mais barulhentos passam a governar. A terra prometida vira terra esvaziada. E o resto do mundo, se tiver juízo, pega o caso como aviso. Se não tiver, pega como roteiro.

Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.