A notícia é curta e o cinismo é longo. Campbell Brown, ex-chefe de parcerias jornalísticas da Meta, aquela senhora simpática que durante anos sentou na mesa onde se decidia qual veículo merecia distribuição e qual merecia o ostracismo algorítmico, agora aparece em entrevista preocupadíssima com a divergência entre a conversa que rola no Vale do Silício sobre inteligência artificial e a conversa que rola entre os consumidores comuns. Traduzindo do idioma corporativo para o português dos mortais, ela está dizendo que o povo anda perguntando coisas inconvenientes para os chatbots e recebendo respostas que ninguém autorizou.

O detalhe biográfico que a matéria educadamente envernizou merece ser cavado. Brown comandou o setor de notícias do Facebook justamente no período em que médicos foram silenciados por discordar do consenso oficial sobre uma certa pandemia, em que jornais inteiros tiveram alcance estrangulado por publicar reportagens verdadeiras em momentos politicamente inconvenientes, em que um presidente eleito foi expulso da praça pública digital por decisão de um comitê de notáveis nomeados por ninguém. Essa é a credencial que ela traz para o debate sobre quem deve decidir o que a inteligência artificial responde quando você pergunta sobre vacinas, eleições ou geopolítica. Não é currículo, é confissão.

Há sempre o mesmo padrão histórico, e ele é tão antigo quanto a prensa de tipos móveis. Toda vez que uma tecnologia nova ameaça desintermediar o monopólio narrativo das elites estabelecidas, surge imediatamente uma comissão de gente bem vestida explicando que aquilo precisa de governança, de responsabilidade, de adultos na sala. No século dezesseis criaram índices de livros proibidos para conter a heresia tipográfica. No século vinte e um criam comitês de confiança e segurança para conter a heresia algorítmica. A roupagem muda, o instinto é idêntico, e o instinto é sempre o mesmo, controlar o que o sujeito comum tem permissão de ler, de ouvir, de perguntar.

O ponto que a entrevistada finge não ver, e que ninguém no Vale do Silício quer encarar de frente, é que a inteligência artificial só virou objeto de pânico curatorial porque pela primeira vez em vinte anos uma camada de tecnologia escapou momentaneamente do dispositivo de controle. Modelos abertos rodam na máquina do sujeito, sem telemetria, sem moderador, sem departamento de relações públicas decidindo se aquela resposta fere as diretrizes comunitárias. É essa liberdade selvagem que assusta. O discurso preocupado sobre desinformação é a embalagem; dentro da caixa vem o velho desejo de reerguer a ponte levadiça que a internet dos anos noventa derrubou e que os modelos abertos ameaçam manter no chão.

Siga o dinheiro e o quadro fica nítido. Quem se beneficia de uma inteligência artificial regulada, certificada, supervisionada por painéis de jornalismo responsável, é exatamente o cartel que perdeu relevância nos últimos quinze anos e que vê na IA a última chance de se reposicionar como intermediário obrigatório entre você e a realidade. Eles não querem que a máquina mente, querem que a máquina mente do jeito deles. Há uma diferença abissal entre as duas coisas, e a diferença chama-se poder.

O consumidor, esse personagem que a executiva menciona com a condescendência de quem fala de uma criança travessa, percebeu há tempos que a conversa de Silicon Valley sobre alinhamento, segurança e responsabilidade é primo direto da conversa de Bruxelas sobre combate à desinformação e da conversa de Brasília sobre fake news. É sempre a mesma elite ilustrada explicando ao povo bronco que ele precisa ser protegido de si mesmo. A boa notícia, e talvez a única notícia genuinamente nova deste século, é que desta vez a tecnologia que eles querem domar nasceu descentralizada, roda em hardware barato e se espalha em pesos abertos pela internet inteira. Podem fazer comissões à vontade. O fogo já saiu do Olimpo.

Com informações da TechCrunch. A análise e opinião são do O Algoz.