O recado vazou de um centro de estudos americano, mas o tremor é em Pequim. As autoridades chinesas estão, segundo se diz nos corredores, cada vez mais preocupadas com o impacto da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho. Quer dizer, o regime que se vende ao mundo como o grande maestro da revolução tecnológica acordou suando frio com a possibilidade de que a tecnologia, essa coisa indomável, faça aquilo que tecnologia sempre fez: destruir tarefas, deslocar trabalhadores e desafinar a partitura do planejador. Olha, há uma ironia quase litúrgica nisso. O Partido passou setenta anos prometendo controlar o futuro, e agora descobre que o futuro tem agenda própria.
Convém olhar para o que não se vê. A China construiu sua legitimidade política sobre um pacto silencioso, você abre mão da liberdade, eu te dou emprego, salário crescente e a ilusão de mobilidade social. Esse pacto sempre dependeu de uma máquina industrial absorvendo dezenas de milhões de trabalhadores migrantes. Tira a esteira de absorção, e o pacto vira papel molhado. Não é coincidência que o nervosismo apareça justamente quando o desemprego juvenil urbano já obrigou o regime a, vejam só, parar de publicar a estatística. Quando o termômetro incomoda, o ditador quebra o termômetro. É procedimento padrão desde os faraós.
Me diz uma coisa, por que justamente uma economia centralmente planejada se desespera diante da automação, se em tese o planejador deveria simplesmente realocar a mão de obra com um clique? Porque o conhecimento que decide o que produzir, onde, para quem e a que preço não cabe na cabeça de comitê nenhum, nem na mais musculosa supercomputação estatal. O mercado é o único sistema que processa em tempo real o que milhões de pessoas querem, sabem e podem fazer. Quando você suprime o mercado, você fica cego. E um cego segurando a foice da automação é o retrato exato do que está acontecendo em Pequim agora.
Siga o dinheiro e a fotografia fica mais nítida. Os subsídios bilionários que o regime despeja em campeões nacionais de semicondutores, robótica e modelos de linguagem não caem do céu, saem do bolso do trabalhador chinês via inflação reprimida, repressão financeira nos depósitos bancários e impostos disfarçados de tarifa. O mesmo operário que será demitido pela máquina financiou, sem saber, a máquina que vai demiti-lo. É o capitalismo de compadrio em sua versão vermelha, onde a estatal substitui o lobista, e o congresso popular substitui o lobby, mas o sentido do dinheiro é o mesmo, dos muitos para os poucos, dos produtivos para os apadrinhados.
Há ainda a camada cultural, que ninguém quer tocar. Toda revolução industrial destruiu ofícios e criou outros, e o saldo histórico é abundância para quem não estava lá quando o tear quebrou. A diferença é que, em sociedades livres, comunidades, famílias, igrejas, associações voluntárias amorteciam a transição. Na China, o Partido destruiu metodicamente cada um desses amortecedores em nome da modernização revolucionária, e agora se vê sozinho diante do choque, sem nada entre o indivíduo e o Estado. Quando você arranca toda a vegetação do terreno, não reclame da enxurrada.
O fato concreto é que nenhuma central de planejamento, por mais sofisticada, vai resolver isto com decreto. A inteligência artificial é uma reorganização brutal do conhecimento produtivo, e o regime que se orgulha de vigiar cada cidadão descobrirá que vigiar não é o mesmo que entender. A história, paciente como sempre, está apenas repetindo a lição que já ensinou nos anos noventa quando ruiu o outro lado do muro, planejador nenhum sobrevive ao choque do real. A diferença é que desta vez o choque vem em forma de algoritmo, e o algoritmo, ao contrário do operário, não tem medo da polícia política.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.