Existe uma pergunta que o brasileiro médio nunca faz quando ouve um economista no rádio, na televisão ou no podcast de fim de semana: esse sujeito trabalha para quem? Não no sentido conspiracionista de carteirinha e reunião secreta. No sentido prático, concreto, de que toda análise econômica parte de algum lugar, e esse lugar tem endereço, CNPJ e interesse bem definido. O economista do banco quer que você confie no sistema bancário. O economista do governo quer que você confie no governo. O economista da universidade pública quer que o orçamento da universidade pública aumente. Nenhum deles é neutro, e nenhum deles deveria fingir que é.
A questão de fundo, a que realmente importa, é metodológica. Existem duas grandes famílias de raciocínio econômico que disputam o campo há mais de um século. A primeira parte do pressuposto de que é possível agregar o comportamento de milhões de indivíduos em variáveis mensuráveis, construir modelos matemáticos a partir dessas variáveis e usar esses modelos para conduzir a economia de um país como se conduz um laboratório. Essa família é adorada por burocratas, porque dá a aparência científica de que decisões tomadas em comitê têm a mesma validade que leis da física. A segunda família parte do ponto oposto: toda ação econômica é ação humana, individual, motivada por propósitos subjetivos que nenhuma equação captura com fidelidade. O mercado não é mecanismo, é o resultado emergente de bilhões de escolhas que nenhum planejador conhece e nenhum modelo antecipa.
A diferença não é estética. É a diferença entre enxergar a economia como algo que pode ser dirigido de cima e enxergá-la como algo que surge de baixo e se degrada quando alguém tenta dirigi-la. Toda a história do século XX é o teste empírico desse debate, e os resultados estão disponíveis para quem quiser olhar sem ideologia nos olhos. Os países que tentaram planejar centralmente a produção, os preços e a distribuição de renda produziram fila, escassez, repressão e colapso. Não como acidente, não por má liderança, mas por impossibilidade estrutural: nenhum burocrata possui a informação que está distribuída entre os indivíduos que compõem o mercado, e o sistema de preços livres é o único mecanismo que agrega essa informação de forma inteligível. Quando o governo fixa o preço do combustível, não está sendo generoso, está destruindo o sinal que diz ao mercado onde alocar recursos. A fila no posto é a conta.
Escolher o lado que parte da ação individual não é romantismo de mercado. É o reconhecimento de uma limitação do conhecimento humano que qualquer pessoa honesta precisa admitir. Nenhum comitê sabe o que você quer comprar amanhã. Nenhum ministério sabe qual empresa merece sobreviver. Nenhum banco central sabe qual é a taxa de juros correta para uma economia de duzentos milhões de pessoas com preferências distintas e em constante mutação. Quando alguém age como se soubesse, o problema não é a intenção, é a arrogância epistemológica de supor que um punhado de tecnocratas bem formados substitui o processo de tentativa, erro e ajuste espontâneo que o mercado opera em tempo real. Essa arrogância tem um nome mais antigo que a economia como disciplina: é a soberba do planejador, e ela cobra o preço nos supermercados, nas farmácias e nos postos de gasolina de qualquer país que a adote com seriedade suficiente.
No Brasil de 2026, a escolha de lado é ainda mais urgente do que parece. Vivemos numa economia onde a carga tributária consome mais da metade da renda dos que pagam impostos formalmente, onde o gasto público cresceu de forma ininterrupta por décadas sem produzir o desenvolvimento prometido, onde a inflação corrói o poder de compra do trabalhador enquanto os economistas do governo debatem qual índice usar para medi-la. Nesse cenário, alinhar-se com a tradição intelectual que parte da liberdade individual, da moeda sólida, do preço livre e da desconfiança sistemática do poder estatal não é postura ideológica, é o mínimo de honestidade intelectual que alguém com acesso aos dados históricos pode sustentar. O resto é marketing acadêmico para justificar o que já foi decidido.
No fim, a pergunta sobre qual lado tomar na economia se responde com outra pergunta: você acredita que um grupo de pessoas com poder político e boas intenções pode organizar a vida de todos melhor do que todos, livres, organizariam a própria vida? Se a resposta for sim, bem-vindo à fila. Se for não, você já escolheu seu lado, mesmo que nunca tenha lido uma linha de teoria econômica. O bom senso chega onde a sofisticação técnica frequentemente se perde.
Com informações do Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.