Repita comigo a oração da catequese contemporânea, "vivemos numa democracia". Agora me diz uma coisa, em que dia exatamente o senhor decidiu o tamanho do imposto que paga, a regra que regula a sua profissão, o currículo que vai ensinar ao seu filho, a moeda que recebe pelo trabalho? Em nenhum. Você marcou um X num papel a cada dois ou quatro anos e voltou para casa achando que estava no comando. Quem decidiu tudo isso foi um aglomerado de gabinetes, comissões, autarquias e burocratas que ninguém elegeu, financiados por um dinheiro que foi tirado de você sob ameaça de cárcere. Chamar isso de governo do povo é o mesmo exercício retórico de chamar fila de banco de festa popular.

O sistema representativo nasceu como remendo prático. Numa época em que a comunicação demorava semanas e a cidade média tinha o tamanho de um bairro de Curitiba, fazia sentido eleger alguém para ir a uma capital distante carregar a vontade local. Esse arranjo virou peça de museu, mas continua de pé porque sustenta uma casta inteira que vive dele. Hoje qualquer pessoa transfere dinheiro em três segundos para o outro lado do planeta, contrata um serviço em outro continente pelo celular, troca informação em tempo real com milhões. E a sua relação com a coisa pública continua sendo aquela cerimônia anual em que você confia uma procuração em branco a um sujeito que prometeu o impossível para conseguir o cargo. A tecnologia evoluiu, a teoria política congelou em 1789.

Olha, tem um lugar onde a democracia funciona de verdade, e ele não tem urna eletrônica nem juiz togado guardando a porta. Chama-se mercado. Cada centavo que circula livremente é um voto. Cada compra é um plebiscito sobre o que merece existir. Cada recusa é um veto. Quem produz mal é demitido pelo consumidor sem precisar de impeachment. Quem entrega valor é eleito todos os dias, sem campanha, sem horário gratuito, sem TSE. Os preços agregam o conhecimento disperso de bilhões de pessoas que nenhum ministério, por mais doutorado que coleciona, consegue reunir num relatório. É a única instituição em que o pobre e o bilionário votam com o mesmo peso por unidade monetária, e em que a vontade do consumidor pesa mais do que a vaidade do produtor.

Compare isso com a tal vontade popular materializada nos parlamentos. Vinte por cento dos eleitores escolhem o partido vencedor, esse partido faz coalizão com mais cinco siglas que ninguém pediu, a coalizão delega a redação das leis a assessores anônimos, os assessores escutam lobistas que pagaram a campanha, e no fim sai um decreto que ninguém leu inteiro obrigando você a fazer o que esses interesses cruzados quiseram. Siga o dinheiro e o teatro acaba. A subvenção que parecia justiça social termina no caixa de uma empreiteira amiga. A regulação que prometia proteger o consumidor cria reserva de mercado para quem tinha advogado bom para escrever a regra. O imposto que ia financiar saúde pública sustenta uma estatal cabide. Tudo isso aprovado em nome do povo, votado pelos representantes do povo, e pago pelo bolso do povo que jamais autorizou nada disso especificamente.

Repare como o vocabulário foi sequestrado. Quando o burocrata fala em fortalecer a democracia, ele quer dizer ampliar o orçamento da estrutura que vive da democracia. Quando o jornalista fala em ameaça à democracia, ele costuma se referir a qualquer ideia que ouse questionar o monopólio decisório dessa mesma estrutura. Liberdade econômica vira ameaça. Escolha individual vira egoísmo. Resistência ao confisco vira extremismo. A palavra mais sagrada do dicionário moderno foi convertida em manto para cobrir um arranjo que, examinado a frio, é uma oligarquia eletiva com marketing caro. Aquele despotismo brando que se exerce em nome do bem comum é justamente o mais difícil de combater, porque ele se apresenta vestido das vestes daquilo que destrói.

A pergunta que ninguém faz é a única que importa. Por que decisões sobre como você cria seus filhos, gasta seu dinheiro, exerce seu ofício e organiza sua comunidade precisam passar por uma assembleia distante de mil pessoas que não conhecem nem o seu CEP? A resposta honesta é que não precisam. O sistema representativo não sobrevive porque entrega resultados, sobrevive porque já organizou a sociedade inteira em torno do pressuposto de que sem ele haveria caos. Caos é exatamente o que existe hoje, só que com papel timbrado. A democracia de verdade, aquela em que cada pessoa decide sobre a sua própria vida e propriedade, foi terceirizada para um sindicato de profissionais do voto alheio. Devolver o poder ao indivíduo não é golpe, é o único caminho possível para honrar a palavra que tanto dizem amar.

Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.