Vamos ao fato nu e cru: o Irã e os Estados Unidos entraram em conflito aberto em março, o Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto de todo o petróleo do planeta, foi efetivamente fechado, nove milhões de barris por dia sumiram do mapa, o Brent bateu 103 dólares, o WTI passou de 105, e o S&P 500 caiu pouco mais de 7%. Duas semanas depois, com um cessar-fogo ainda frágil e o petróleo ainda acima de cem dólares, o índice já tinha recuperado praticamente tudo. Zerou no ano. A Bloomberg chama isso de "resiliência" e fala em "apetite pelo bull market". Eu chamo de outra coisa: o mercado americano não está ignorando o petróleo por coragem, está ignorando porque aprendeu que, no fim das contas, o Fed sempre aparece com o balde.

Me diz uma coisa, quando foi a última vez que uma crise de petróleo genuína, com fechamento de rota estratégica e tudo, não desembocou em recessão? Em 1973, o embargo árabe derrubou o Ocidente. Em 1979, a revolução iraniana fez o mesmo. Em 1990, o Iraque invadiu o Kuwait e o mundo tremeu. A diferença entre aquelas crises e a de agora não é que a economia americana ficou mais robusta, é que o mecanismo de resposta mudou. Naquele tempo, governos tinham que conviver com as consequências. Hoje, bancos centrais fabricam liquidez antes que a dor chegue ao consumidor. O choque de oferta é real, a resposta é sintética. E o mercado, que é o animal mais adaptável do planeta, já precificou que o socorro vem antes do desastre. Isso não é resiliência, é dependência química com receita médica.

Olha, a OPEP+ anunciou aumento de cotas de 206 mil barris por dia para maio, o que é o equivalente diplomático de jogar um copo d'água num incêndio florestal e tirar foto para o comunicado de imprensa. Ao mesmo tempo, cortou a previsão de demanda para o segundo trimestre, confessando nas entrelinhas o que ninguém quer dizer em voz alta: o mundo está desacelerando. O petróleo está caro não porque a demanda explodiu, mas porque a oferta foi artificialmente estrangulada por geopolítica. Quando o preço sobe por demanda, é sinal de economia aquecida. Quando sobe por conflito, é imposto de guerra disfarçado de commodity. E quem paga esse imposto? O sujeito no posto de gasolina, o transportador de carga, o pequeno industrial que já operava no limite. Wall Street não paga. Wall Street negocia contratos futuros e ganha na volatilidade.

E tem o circo tarifário de Trump, que segue em paralelo como se uma crise de cada vez fosse pouco para este governo. Cinquenta por cento sobre aço, alumínio e cobre. Ameaça de cinquenta por cento sobre a China caso Pequim arme o Irã. Uma cúpula com Xi Jinping marcada para maio, provavelmente para negociar em público o que já foi negociado em privado. O Supremo já derrubou a base legal das tarifas anteriores, e agora o governo opera com a Seção 122, que tem validade de 150 dias, ou seja, é tarifa com data de validade, que é o tipo de "política comercial" que nenhum empresário sério consegue usar para planejar investimento de longo prazo. Quer dizer, o governo simultaneamente encarece os insumos por tarifa e encarece a energia por conflito, e depois comemora quando o mercado acionário não desaba. É como um bombeiro que comemora que o prédio não caiu depois de ele mesmo ter acendido o fogo nos dois andares de baixo.

O que a Bloomberg não diz, porque a Bloomberg é financiada por quem se beneficia da narrativa otimista, é que essa "resiliência" tem nome técnico: descasamento entre economia financeira e economia real. O S&P 500 não é a economia americana. É um índice de megacorporações globais que têm acesso a crédito barato, recompra de ações, engenharia fiscal sofisticada e lobby permanente em Washington. O sujeito que dirige Uber em Houston ou que tem uma padaria em Ohio não está "resiliente" coisa nenhuma. Está pagando mais caro pela farinha, pela gasolina, pelo seguro, pelo aluguel, enquanto o Nasdaq sobe 0,3% e um analista de banco escreve que "o apetite pelo risco continua saudável". Saudável para quem? A desconexão entre o preço dos ativos e a vida real das pessoas não é um sinal de força. É o sintoma clássico de um sistema que socializou os riscos e privatizou os ganhos. Já vimos esse filme antes. Termina sempre da mesma forma: quando a conta chega, quem está no andar de cima pega o elevador, e quem está embaixo descobre que a escada de incêndio estava trancada.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.