O senso comum diz que guerra é boa para o ouro. Toda vez que o mundo começa a pegar fogo, os investidores teoricamente correm para o metal como se ele fosse um bunker portátil. Só que desta vez não foi isso que aconteceu. O conflito no Golfo Pérsico escalou, o petróleo subiu como era esperado, e o ouro, em vez de subir junto, foi na direção oposta. O pânico de quem olha para o noticiário é compreensível; o erro de quem para aí é imperdoável.
O mecanismo é o seguinte, e ele tem a beleza sinistra de uma armadilha bem construída. Quando o petróleo sobe em função de uma crise no Golfo, ele entra direto no CPI americano, que é o índice de inflação ao consumidor que o banco central dos Estados Unidos usa como bússola para decidir juros. Com o índice de preços subindo, o Fed fica paralisado: não pode cortar juros sem parecer que está jogando gasolina na inflação, e não pode subir sem agravar uma economia que já range. O resultado prático é que as taxas ficam altas por mais tempo, o dólar se fortalece, e o ouro, que se move inversamente ao dólar forte com juros reais elevados, cai. A guerra no Golfo derrubou o ouro não apesar do dólar, mas por causa dele.
Aqui mora a distinção que separa quem pensa de quem reage. O ouro não rastreia a inflação dos índices estatísticos, das colunas de CPI que burocratas calculam com metodologias que mudam toda vez que o resultado é inconveniente. O ouro rastreia a inflação monetária de verdade, a expansão da oferta de moeda, o excesso de crédito criado do nada pelos bancos centrais. Por ora, o Fed não está imprimindo para financiar a guerra; está apenas deixando os juros onde estão e torcendo para o petróleo não subir ainda mais. Enquanto essa ficção durar, o ouro vai continuar comportado. Quando ela acabar, e ela sempre acaba, a história muda de tom.
Porque toda guerra, sem exceção na história registrada da humanidade, termina sendo financiada pela impressora. Não necessariamente no primeiro mês, não necessariamente no primeiro ano. Mas o gasto militar explode, a arrecadação nunca é suficiente, o governo emite títulos, o banco central absorve esses títulos e a moeda se dilui. É o roteiro de sempre, repetido de Atenas a Roma, do Império Espanhol à Inglaterra pós-Segunda Guerra, dos Estados Unidos no Vietnã à Rússia hoje. O petrodólar tem uma vida longa, mas não eterna, e cada conflito no Golfo descasca mais um verniz dessa arquitetura que o mundo aceita por inércia e conveniência.
O que o petróleo subindo revela, enquanto o ouro cai, é uma espécie de ilusão de solvência. O mercado ainda acredita que o Fed controla a situação, que o dólar é sólido, que a disciplina monetária vai se manter mesmo com navios de guerra multiplicando no estreito de Ormuz. Pode ser que acredite por mais algum tempo. Mas cada barril que sobe corrói o poder de compra real de quem segura papel-moeda, e essa corrosão não some porque o CPI a subestima. Ela se acumula silenciosamente, como água infiltrando uma fundação, até que um dia o dono da casa percebe que a parede estava cedendo faz anos.
O ouro vai subir. Não porque analistas de banco de investimento recomendam, não porque alguma autoridade deu sinal verde. Vai subir quando o custo real da guerra se tornar impossível de esconder nos índices, quando o governo precisar de dinheiro que os títulos não conseguem captar a taxas suportáveis, quando o banco central tiver que escolher entre a inflação e o financiamento do Estado, e escolher, como sempre escolheu, o financiamento do Estado. Nesse dia, quem segurou o metal enquanto ele caía vai ter o conforto de quem plantou no inverno. E quem estava rindo da queda vai entender, tarde demais, que confundiu o mecanismo com a conclusão.
Com informações do Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz. ```