A William Blair resolveu subir as projeções da Carvana alegando vendas mais fortes no primeiro trimestre, e o rebanho de Wall Street fez o que sempre faz diante de um upgrade de corretora: comprou a narrativa antes de ler a letra miúda. Vale lembrar que estamos falando da mesma empresa que virou símbolo da bolha pós-pandemia, cujas ações despencaram mais de noventa e nove por cento entre 2021 e 2022, e que só não quebrou porque uma renegociação de dívida heroica adiou o enterro. Agora voltou a ser queridinha. Quer dizer, a memória do mercado continua tendo o tamanho de um peixinho dourado.

Olha, a questão nunca foi se a Carvana vende mais carros num trimestre específico. A questão é o chão em que ela pisa. O mercado americano de usados foi inflado artificialmente por uma enxurrada de liquidez despejada pelo banco central durante a pandemia, somada a cheques de estímulo que transformaram famílias endividadas em compradoras momentâneas de SUVs seminovos a preços inflacionados. Quando se imprime dois trilhões de dólares e se despeja na veia do consumidor, todo mundo vende mais. O problema é que essa não é prosperidade, é ilusão contábil de curto prazo, e a conta sempre chega, atrasada e com juros.

Me diz uma coisa: quem está financiando esses carros usados vendidos com tanto entusiasmo? A resposta incomoda. A inadimplência em empréstimos subprime automotivos nos Estados Unidos está nos maiores níveis em décadas, com famílias pagando parcelas mensais que ultrapassam o aluguel de muita gente. A Carvana cresce, sim, mas cresce numa cadeia onde o comprador final está cada vez mais frágil e o custo do dinheiro, apesar dos cortes recentes de juros, continua pesado. Analista de banco olha para o trimestre; quem entende de ciclo olha para o balanço do cliente do cliente.

Há também o que ninguém quer ver, aquele detalhe desagradável que não entra no relatório bonitinho. A relação da Carvana com a DriveTime, controlada pelo pai do próprio fundador, já rendeu escrutínio regulatório e suspeitas de operações entre partes relacionadas que embelezam resultados de um lado enquanto escondem riscos do outro. Siga o dinheiro, e o labirinto começa a ficar interessante. Não se trata de torcer contra a empresa, trata-se de lembrar que o mercado livre funciona quando as informações são transparentes, e quando não são, o que parece crescimento pode ser engenharia financeira vestida de sucesso operacional.

Existe um princípio antigo que diz o seguinte: antes de celebrar a recuperação, pergunte o que foi destruído na queda e o que foi realmente reconstruído. A Carvana cortou custos, fechou centros, demitiu aos milhares, e isso é saudável. Mas a cotação atual embute expectativas de crescimento que pressupõem que o consumidor americano continuará disposto a pagar parcelas gordas por carros que depreciam rápido, num ambiente onde a poupança pessoal evaporou e o cartão de crédito já está estourado. Projeção de analista é papel; realidade do consumidor é carne.

No fim das contas, a lição de sempre. Quando a imprensa financeira repete em coro que uma ação vai subir, é hora de desconfiar, não de comprar. O mercado recompensa quem pensa por conta própria e pune quem segue manada. E manada, convenhamos, é o que mais se vê quando corretora grande solta relatório otimista sobre empresa que já queimou o investidor uma vez. A memória é curta, mas o bolso lembra.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.