A William Blair iniciou cobertura da Suncrete com a etiqueta de outperform, e o ritual se cumpriu como sempre se cumpre. O analista publica, o terminal Bloomberg dispara o alerta, os fundos quantitativos rebalanceiam em milissegundos, os gestores de varejo correm atrás para não perder o bonde, e o investidor pessoa física, esse coitado, chega na festa quando o champanhe já está morno e a conta já foi rateada entre os primeiros convidados. A peça de research vira liturgia, e a liturgia vira preço. Ninguém parou para perguntar uma coisa elementar, que é por que diabos um banco de investimento sediado em Chicago resolveu, justo agora, descobrir uma fabricante de concreto que existe há décadas.

Olha, a resposta está sempre escondida no mesmo lugar, e o lugar é o relacionamento bancário. Casas como a William Blair não vivem de acertar previsão, vivem de investment banking fees, de mandato de fusão, de aquisição, de oferta secundária, de roadshow. A cobertura de equity research é a vitrine, o cardápio da casa, o aperitivo que se oferece para o cliente corporativo entender que, se ele contratar a casa para sua próxima emissão, terá um exército de analistas martelando recomendação positiva no terminal de cada gestor relevante do planeta. É um arranjo elegante, civilizado, com aparência técnica, e que funciona como propaganda paga disfarçada de análise independente. Quem paga a conta no fim, vamos combinar, é quem compra a ação no topo.

Me diz uma coisa, você já viu uma cobertura inicial sair com classificação underperform? Saiu, mas é raríssimo, porque ninguém ganha mandato de banco de investimento ofendendo o CFO da empresa coberta. O incentivo está torto desde a origem, e está torto há décadas, desde os escândalos do começo dos anos 2000 que produziram a tal Global Settlement e prometeram separar research de banking. Separaram no organograma, na sala física, na muralha chinesa do compliance. No incentivo econômico, continuaram colados como siameses. O analista sabe quem paga seu bônus, e quem paga seu bônus sabe quem o analista precisa agradar.

O que se vê no pregão é a Suncrete subindo no after market depois do relatório. O que não se vê é o pequeno investidor que comprou a ação no preço inflado pela recomendação e vai segurar o mico quando, dali a três trimestres, vier o downgrade silencioso, sem holofote, numa sexta-feira às cinco da tarde, quando ninguém está olhando. O ciclo se repete porque o público insiste em tratar relatório de banco como ciência e não como o que é, peça de marketing financeiro com gravata e gráfico bonito. A indústria de gestão ativa nos Estados Unidos cobra trilhões em taxas para entregar, em média, retorno inferior ao índice passivo, e ainda assim o sujeito acorda cedo para ler o que a William Blair achou da Suncrete.

O concreto, ironicamente, é o produto mais honesto dessa história toda. Cimento, areia, brita e água não mentem. Ou a casa fica em pé ou desaba. O resto da cadeia, do banco emissor passando pelo regulador frouxo até o jornal econômico que reproduz o release como se fosse manchete, opera num regime de incentivos cruzados onde a mentira pequena é tolerada porque a mentira grande sustenta o sistema. Quando o cidadão decide finalmente investir o suor do seu trabalho, está entrando num cassino onde a casa não só conhece as cartas, ela imprime as cartas, distribui as cartas e ainda escreve a coluna no jornal explicando por que aquelas cartas são as melhores cartas do baralho.

A liberdade de mercado pressupõe simetria mínima de informação, e a indústria de research das grandes casas opera exatamente para destruir essa simetria em favor de quem paga a banda. Não é livre mercado, é mercado capturado, com aparência de livre mercado, vendido como livre mercado para quem nunca leu a letra miúda do prospecto. A próxima vez que alguém disser que o capitalismo financeiro americano é o exemplo a seguir, lembre da Suncrete, lembre da Blair, e lembre que entre o relatório e a verdade existe sempre um fee que ninguém menciona em voz alta.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.