A William Blair olhou para a CarMax, a maior varejista de carros usados dos Estados Unidos, e saiu com um veredito que qualquer economista de banco traduziria como "tudo bem". Vendas comparáveis estáveis no trimestre encerrado em maio. Estável. Que palavra conveniente para descrever uma economia onde o consumidor americano, esmagado por dois anos de inflação acumulada, juros altos para conter a inflação provocada pela própria farra monetária anterior, e um custo de vida que corroeu silenciosamente o poder de compra, simplesmente não consegue mais trocar de carro. Estável não é bom. Estável, num setor que historicamente cresce quando a economia anda, é o sinal vermelho que ninguém quer acender.
Me diz uma coisa, quando foi que o mercado de usados virou o termômetro mais confiável da saúde econômica real? Desde sempre. Carro novo é desejo, carro usado é necessidade. Quando a família média aperta o cinto, ela não compra o zero quilômetro do showroom, ela vai até o pátio da CarMax procurar um sedan de cinco anos com setenta mil milhas rodadas. Se nem para isso sobra dinheiro, se as vendas comparáveis se arrastam num platô enquanto a inflação oficial some dos noticiários como se tivesse sido derrotada, a conclusão é óbvia para quem não precisa agradar ninguém: o estrago monetário dos últimos anos foi absorvido pela carne do consumidor, não pelos balanços dos bancos que foram socorridos quando convinha.
E aqui entra a parte que ninguém quer discutir no horário nobre. O ciclo de crédito barato fabricado pela impressora do banco central americano inflou artificialmente o mercado de automóveis durante a pandemia, com preços de usados batendo recordes absurdos, financiamentos de oitenta e quatro meses virando padrão, e consumidores comprando muito mais carro do que o orçamento real permitia. Quando a festa acabou e os juros subiram para conter o monstro que o próprio Fed criou, sobrou o consumidor pagando prestação de um bem que já perdeu metade do valor enquanto o salário real encolheu. O boom inevitavelmente produz o bust, e o bust nunca é democrático: os ricos perdem papel, os pobres perdem o carro que usavam para ir trabalhar.
Siga o dinheiro e entenda a engrenagem. As montadoras continuam lucrando com mix premium, os bancos continuam ganhando com juros de financiamento que beiram o agiotagem legalizada, e as concessionárias maquiam o movimento com promoções que escondem margens espremidas. Quem paga a conta da estabilidade anêmica da CarMax é o sujeito que trocava de carro a cada três anos e agora vai empurrar o mesmo veículo por sete, oito, dez, torcendo para a transmissão não pifar antes da próxima temporada de impostos. A William Blair chama isso de estabilidade. O cidadão comum chama de empobrecimento.
O detalhe que escapa ao analista de planilha é cultural, e por isso mais profundo. Uma sociedade onde a classe média não consegue mais acessar o símbolo mais básico de mobilidade e independência individual, o automóvel usado, é uma sociedade que está recuando silenciosamente para um estágio anterior de civilização material. Não é catástrofe estrondosa, é definhamento discreto, daquele tipo que os governos adoram porque não produz manchete nem revolta. Estabilidade, dizem eles. Estagnação, responde qualquer vendedor honesto que trabalha comissionado num pátio da Carolina do Norte.
Quando o varejo de usados para de crescer numa economia que supostamente vai bem, ou a economia está mentindo ou o varejo está dizendo a verdade que a economia esconde. Aposte no varejo, ele mexe com dinheiro de verdade.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.