A William Blair reiterou recomendação de outperform para as ações da Affirm Holdings após conferência com a companhia, e o mercado recebeu a notícia com aquele entusiasmo treinado que se reserva às fintechs em qualquer ciclo de juros. O roteiro é conhecido: analista de sell side senta com executivo, executivo mostra slide com gráfico subindo, analista volta para a mesa e escreve relatório dizendo que as perspectivas continuam animadoras. O investidor de varejo lê a manchete, vê a sigla AFRM piscar em verde e conclui que descobriu o futuro do crédito ao consumidor. Ninguém pergunta o óbvio, que é justamente o que ninguém quer perguntar.

A Affirm vende uma ideia sedutora, a de que o consumidor americano pode dividir uma jaqueta de trezentos dólares em quatro parcelas sem juros e seguir feliz. Só que crédito não brota em árvore, e juro zero para o comprador significa juro embutido em algum lugar do arranjo, seja no lojista que paga taxa gorda, seja no consumidor que aceita uma taxa efetiva absurda quando o parcelamento é mais longo, seja no investidor que comprou a carteira securitizada achando que estava levando coisa nobre. O modelo se chama buy now, pay later, mas funciona mesmo é como buy now, worry later, e a preocupação foi terceirizada para quem ainda não percebeu que a recebeu.

Quando uma economia precisa parcelar tênis em quatro vezes para o consumidor não desistir da compra, alguma coisa já apodreceu antes do parcelamento existir. A renda real do americano mediano não acompanhou o custo de vida da última década, o cartão de crédito tradicional bateu recordes históricos de inadimplência, e aí surge a fintech simpática prometendo resolver o problema oferecendo mais crédito a quem já está afogado em crédito. Isto não é inovação financeira, é a velha engenharia de empurrar a fatura para frente vestida com aplicativo bonito e logo em roxo. O subprime de 2007 também era inovador, lembra dele? Tinha nome chique, modelo matemático sofisticado e nota AAA carimbada por gente respeitável.

Vale seguir o dinheiro com calma. A Affirm precisa de funding constante para originar crédito, depende de mercado de securitização funcionando, depende de taxa de juros básica comportada, depende de inadimplência baixa e depende, sobretudo, de que ninguém olhe muito de perto para a qualidade dos tomadores que recebem trezentos dólares parcelados sem checagem séria. Quando algum desses pilares treme, e basta um, a estrutura inteira aparece como o que sempre foi, uma máquina de transferir risco de quem vende para quem investe, com um pedágio cobrado em cada etapa do trajeto. O analista que recomenda outperform está olhando para o pedágio, não para a ponte.

O detalhe gracioso é que o entusiasmo do sell side nunca se materializa em recomendação de venda quando a coisa azeda. Você não viu William Blair, nem nenhuma das casas concorrentes, alertando o varejo antes da grande crise das fintechs de 2022, quando a Affirm perdeu mais de noventa por cento do valor de pico. O relatório vem sempre em tom otimista no caminho de subida e some quando começa a queda, porque o incentivo do analista é manter relacionamento com a empresa coberta, não proteger o bolso de quem lê o relatório. Isto não é teoria da conspiração, é leitura básica de quem paga o almoço de quem.

O leitor atento entende que recomendação positiva de banco de investimento sobre fintech de crédito ao consumidor americano em ciclo de juros ainda alto é exatamente o tipo de aplauso que merece desconfiança. Não porque o negócio vá quebrar amanhã, mas porque o modelo depende de um conjunto de condições que historicamente não duram. O parcelamento sem juros aparentes é a forma mais antiga de capitalismo travestido de generosidade, e quando se esquece quem paga a conta, é porque a conta já está endereçada para você.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.