A WisdomTree, gestora de ETFs sediada em Nova York, fechou na semana passada a compra da Atlantic House Investments, casa britânica especializada em produtos estruturados, por algo na casa dos duzentos milhões de dólares. O negócio adiciona aproximadamente seis bilhões de dólares ao patrimônio sob gestão da compradora e dá a ela acesso a uma prateleira de produtos chamados de defined returns, esses contratos financeiros que prometem ao investidor um retorno previsível desde que o índice subjacente não despenque além de certo ponto. No papel, é diversificação. Na prática, é mais uma aquisição num setor que vive de comprar concorrente e revender a mesma coisa com etiqueta nova.
Vale parar e perguntar de onde sai tanto dinheiro para essas brincadeiras de bilhão. A indústria global de gestão de ativos passou a última década e meia inflada por uma anomalia histórica, juros artificialmente baixos que empurraram poupador, fundo de pensão e até motorista de Uber para dentro do mercado financeiro à procura de qualquer rendimento que ficasse acima de zero. Quando o banco central do mundo decreta que poupar é burrice, todo mundo vira investidor à força, e quem cobra taxa de administração sobre patrimônio alheio vira o novo nobre rentista. A WisdomTree não cresceu porque inventou nada extraordinário, cresceu porque o sistema monetário fabricou uma multidão de clientes desesperados por proteção contra a inflação que o próprio sistema produziu.
Os produtos estruturados que a Atlantic House empacota e vende são, no fundo, derivativos vestidos de fraque. Funcionam bem em mercado lateral, pagam o cupom prometido, dão a sensação reconfortante de engenharia financeira sofisticada, e então, quando a volatilidade aparece de verdade, revelam que a barreira de proteção era de papel crepom. Quem comprou autocallable atrelado ao Euro Stoxx em janeiro de 2020 lembra bem da experiência. Mas a memória do investidor de varejo é curta, a do consultor que ganha comissão é mais curta ainda, e a indústria sabe disso. Por isso o segmento não para de crescer. Por isso vale duzentos milhões de dólares para a WisdomTree colocar a mão nele.
Há um padrão silencioso que ninguém comenta nessas notas frias de fusão e aquisição. A cada ciclo, o número de gestoras independentes diminui e a fatia das gigantes aumenta. Vanguard, BlackRock, State Street e a turma do segundo escalão, onde a WisdomTree está se posicionando, vão concentrando o controle sobre uma parcela cada vez mais obscena do capital mundial. São esses sujeitos que votam nas assembleias de praticamente toda empresa listada em bolsa, que pressionam por agendas que a maioria dos beneficiários finais dos fundos jamais aprovou, que ditam o que é investimento responsável e o que não é. O movimento aparece como eficiência de mercado e é apresentado em comunicado polido. Mas concentração é concentração, e dinheiro concentrado vira poder político concentrado mais cedo do que tarde.
A boa notícia, se é que existe, é que toda essa arquitetura depende da continuidade do regime monetário que a sustentou. No dia em que os juros reais voltarem a ser positivos de verdade por um período prolongado, em que o investidor descobrir que pode ganhar três por cento acima da inflação simplesmente comprando um título do tesouro, a indústria de produtos exóticos para extrair retorno do nada vai murchar como balão furado. Aquisições como essa são, em parte, corrida para se posicionar antes que a maré vire. Os executivos que estão vendendo a Atlantic House sabem disso. Os que estão comprando também. O cliente final, esse coitado, ainda acha que está participando de algo sofisticado.
No fim, o que essa transação revela é menos sobre estratégia corporativa e mais sobre o estado em que se encontra o capitalismo financeiro contemporâneo. Não é mais um sistema que aloca poupança para projetos produtivos. É um sistema que cria instrumentos cada vez mais elaborados para ocupar gestores cada vez mais bem pagos, todos vivendo do diferencial entre a taxa que pagam pelo dinheiro e a taxa que cobram para administrá-lo. Enquanto durar a festa, haverá manchete celebrando aquisição. Quando acabar, haverá manchete chorando contágio sistêmico. E o contribuinte, como sempre, vai descobrir que a conta da farra dos outros chegou no nome dele.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.